CRÓNICA DE UMA VIAGEM

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Mais reconhecimentos

Mais reconhecimentos no interminável Alentejo.....................................................................


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Planície Mediterranica

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.De volta aos petiscos e às festarolas no alentejo..

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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

www.xquest.pt

Nestes últimos fds tenho estado a palmilhar alguns quilómetros entre Évora e a Serra da Estrela, com o objectivo de reconhecer novos caminhos para a mega prova de BTT que se vai realizar em Outubro de 2010..................................................................................................................

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

De volta à Serra

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Já me perdi nos quilómetros já percorridos a pé e de bicicleta na Serra da Estrela, mas seguramente já são mais de 2000. No entanto, cada vez às terras de Viriato, descubro sempre mais uma subida, uma descida, um riacho, um bosque, uma cascata, uma casa perdida num vale.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

PERU-BOLIVIA

No berço do antigo império Inca.....


Passamos pela caótica e sombria cidade de Lima com os seus 10 milhões de habitantes — sobrevoamos as misteriosa linhas de Nasca e a maior duna de areia do mundo com mais de 2000m de altitude num Cessna “limpa tripas”--- visitamos a bela cidade colonial de Arequipa rodeada de cones vulcânicos perfeitos a mais de 6000m, onde nasce o “braço” mais comprido do rio Amazonas --- subimos aos 5000 m, para de seguida descer ao Canyon del Coca, a garganta mais profunda do mundo, onde ainda planam gigantescas aves de rapina, os Condores, quase extintas --- atravessamos o Parque Natural de Salinas até Puno, onde entramos no lago Titicaca. --- visitamos as ilhas flutuantes de Uno, onde os nativos mais me parecem estar em exposição para turista tirar fotos, como se, de um jardim zoológico tratasse --- cruzamos o enorme lago e ficamos nas ilhas Amantani e Taquile, hospedados em casa de nativos --- entramos na Bolívia e ficamos surpreendidos com a fantástica e perigosa cidade de La Paz --- fomos para Sul para atravessar o maior lago salgado do mundo, o Salir de Yuni --- seguimos mais para sul durante 1000km sempre a mais de 4000m de altitude por desertos de areia negra e vulcões activos intervalados por lagos gigantescos com águas sulfurosas, onde, existem bandos de flamingos cor de rosa, simplesmente espectacular --- depois de estarmos junto à fronteira com o Chile e argentina, voltamos para Norte até ao Salir de Yuni, numa viagem vertiginosa, para de seguida regressarmos a La-Paz --- Voltamos ao lago Titicaca para a bonita e estranha cidade de Copacabana para irmos para de seguida irmos à ilha do Sol, onde consta que nasceu o primeiro Inca, indescritível --- regressamos a Puno para apanhar uma excursão tipo “tuperware” até à mítica cidade de Cusco, um pouco plastificada --- embrenhamo-nos por montes, vales, glaciares, rios e florestas durante 5 dias para fazer o trilho Salkantay até Águas Calientes para no dia seguinte pelas 3 da manhã treparmos uma subida alucinante até á mágica e misteriosa cidadela de Machu-Pichu (montanha velha) --- a cereja em cima do bolo, escalar o Huayna-Pichu
(montanha nova) bem ao lado do Machu-Pichu.
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Em breve a crónica.












sexta-feira, 10 de julho de 2009

GREDOS


(clicar nas fotos para ampliar) (o menu do blog encontra-se no fim)

Desta vez deixo algumas fotos, daquela que é uma das melhores montanhas para fazer montanhismo e está aqui bem perto de Portugal!!!!!!!!!!!!!!













segunda-feira, 25 de maio de 2009

Os Biodanzantes na Egitânea



Num destes dias, a muito querida “manada biodanzante” encaminhou-se para a zona raiana e, como base de apoio para as suas investidas de vivências de vitalidade, criatividade, sexualidade, afectividade e transcendência, usou a pousada de juventude localizada em terras de Idanha.
Os “biodanzantes”são normalmente guiados por um ser fabuloso, mas desta vez este fabuloso e lindo ser delegou a “condução da manada” a um guia que se auto-intitula “o pastor”.
Como é habitual, a “incrível manada” não falha nos horários, e de manhã todos os seus elementos são muito pontuais a tomar o pequeno-almoço e a reagrupar-se para sair em busca de novos pastos de felicidade.
A barragem Marechal Carmona foi o ponto de partida para uma caminhada de 17 km. No princípio, os “biodanzantes” mostravam-se renitentes quanto à distância, mas valentões como são, nunca se negam a um bom desafio! Nem que tenham de mergulhar no desconhecido e enfrentar o “bicho pelos cornos”.
Inicialmente muito enérgica, a irreverente “manada”, pouco a pouco, com o caminhar e consequente cansaço, começou a vergar sob o peso da rotina e da mecânica impostas pelo estilo de vida alienante que a sociedade nos impõe no dia-a-dia. Devagar, o pisar assertivo com toda a planta do pé vai ligando o “biodanzante” à Terra, que já não identifica o ser que criou para colorir a sua vida. Mas a linda “manada” volta a fazer essa ligação e a Terra ama esse pequeno gesto. Porém, um pequeno “rebuçado” não é suficiente; ela sente-se muito cansada, mesmo muito cansada. Torna-se necessário que todo o “gado tresmalhado” volte a reunir-se para reflectir, mas acima de tudo que aja, pois de reflexões e palavras bonitas está a Terra farta.
No grupo existia um pequeno “bezerinho” maravilhoso, que apesar da sua irreverência e dos caprichos próprios da idade, deu o exemplo de como contemplar as pequenas e belas coisas que a Mãe natureza nos dá, como um carreiro de formigas, que vivem a vida como se do último dia se tratasse Já os adultos, muito seguros e encastrados nas suas cercas e currais, desaprenderam essa capacidade de apreciar as coisas simples da vida. No entanto, os “biodanzantes”, ao caminharem todas as semanas, reaprendem a simplicidade da vida e vivem-na em toda a sua plenitude. Ao dançar a vida, estimulam o modo de viver em toda a sua grandeza.
Nas antigas terras da Egitânia, como se de uma regressão se tratasse, “os biodanzantes” redescobrem o seu passado e as batalhas que lá se travaram. Por terem sido muito duras, deixaram muitas marcas e moldaram, e de que maneira, o quotidiano de cada membro da “manada”. Mas estas guerras e fogos não se extinguem de um dia para o outro; e também não vale a pena fugir deles, pois acabam por eclodir a qualquer momento, como se de um vulcão adormecido se tratasse. A querida “manada biodanzante”, bem encaminhada e ciente da situação, combate sem tréguas essas guerras e essas ardências. Mas não se devem extinguir todos os fogos, alguns devem ser mantidos em lume brando, pois iluminam e aquecem a alma do Ser. São como um forno a cozer bolos benzidos e acarinhados por uma velha senhora de face marcada por rugas profundas, fruto da dureza da vida que, no entanto, não conseguem esconder o inesgotável sorriso, amplo e sincero.
Os “biodanzantes” voltam aos verdes prados. Desta vez, cada um caminha ao seu ritmo, aprendendo a escutar o corpo, que vai manifestando o seu desagrado pelos excessos cometidos pela cabeça pensante, que muitas vezes se desliga e ignora o resto do corpo. Mas esta dissociação é impossível, a cabeça e o resto do corpo são um só, e os “biodanzantes” têm aprendido a fazer essa conexão.
A dada altura, perto da albufeira, a corajosa “manada” dá de caras com uma outra manada (esta bem a sério!). Apesar de espécies diferentes, não houve necessidade de confronto, pois estávamos providos de bom “pasto de sabedoria” para nos saciar. Com o tempo, os “biodanzantes” aprendem a gerir os conflitos, evitando-os quase sempre; contudo, se necessário, não têm qualquer problema em enfrentá-los com toda a potência, mas sem raiva, pois esta disturba e ilude a clareza dos sentidos.
Ao fim de muitos quilómetros, o merecido descanso junto à albufeira. Os “biodanzantes” são muito abertos a novas experiências e como tal aventuram-se numa nova linguagem de nome “borreguês”. As infrutíferas tentativas não baixam o seu astral; pelo contrário, seguros de si, não se desiludem com o fracasso.
Alguns corajosos aventuraram-se nas águas surpreendentemente mornas, mas um pouco ricas em hidratos. Por vezes estes banhos são como regressar às origens, porque viemos da água e desfazemo-nos na água.
Mas nem só de vivências e de algumas coisas mais platónicas vive o grupo, também tem de se nutrir e bem, de preferência com deliciosa comida. (E de facto estava mesmo uma delícia, quase que os meus “enjaulados” dentes apodreciam com tantos sabores.)
Para além do “pastor” que conduziu a sua querida “manada” pelo planalto raiano, sorrateiramente, o poeta “caipira” começou a se evidenciar. São Pedro, talvez por ciúmes, ao ver tão grande declamador não gostou e praguejou-o com relâmpagos e fortes bátegas de água. Mas o poeta, persistente, não deixou de declamar, e nem os seus seguidores o deixaram de escutar, venerando-o pelas sábias e poéticas palavras. O todo-poderoso, ao ver tal devoção e firmeza, ordenou a São Pedro que desse tréguas aos “biodanzantes”, e estes continuaram a sua tertúlia de aclamações à vida.
O grupo “biodanzante” voltou a sair ordeiramente. Deixando para trás a Egitânia, seguiu em direcção ao Calhau, que é como um farol de toda a zona raiana, pois onde quer que se esteja, é sempre visível. Os “biodanzantes” não se guiam por um farol, mas sim por muitos faróis, pois cada indivíduo é um farol, com uma pequena luz que ilumina uma parte do caminho de outra criatura. Por isso não se pode estar só restringido a um “farolzinho”, quantos mais melhor, mais irradiação se tem para o percurso de vida, iluminando o destino do Ser.
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A “manada” não é um grupo restrito, antes pelo contrário, recebe de braços abertos novos elementos, e foi o que aconteceu. Os “biodanzantes” cresceram naquele dia com novas almas, que trouxeram mais brilho ao Calhau, fazendo-o irradiar ainda com mais intensidade toda a sua beleza.
A caminhada prossegue entre pedrinhas, pedras, pedregulhos e calhaus, percorridos em tempos pelos paleolíticos, romanos, visigodos, árabes e por um D. Afonso Henriques que, depois de conquistar as terras de Monsanto aos mouros, as doou aos Templários para que eles as defendessem dos agressores. Os novos invasores, pelo contrário, são muito pacíficos, incentivam o diálogo e o afecto, para que nenhuma quezília fique por resolver.
Apesar da “manada” se ter tresmalhado por momentos, como um íman, depressa se voltou a reagrupar. Nem os pólos que exercem forças muito opostas conseguiram afastar a assertividade dos “biodanzantes”, como se estes estivessem sempre na linha do equador. Mas, por vezes, têm alguns desvarios, e torna-se necessário fazer uma incursão aos trópicos, onde o calor é muito forte e nos faz sentir mais vivos, acalentando a alma e o coração, por vezes arrefecidos.
Os mais jovens não dão tréguas, fazendo regredir os adultos ao seu nível, pois só desta forma é possível a compreensão de mentes tão claras e autênticas, que, por serem tão inocentes, contagiam e fazem os adultos desejar ser outra vez pequenos, para brincar aquilo que não puderam ou para recordar as delícias de uma infância passada.
Entre os enormes xistos, azinheiras e sobreiros sobressai uma ermida perdida no tempo, a ermida de São Pedro Vir-à-Corsa. Diz a lenda que este lugar havia sido escolhido por um eremita, de seu nome Amador, para se refugiar do mundo. Este monge, que há muito vivia na gruta, encontrou um dia um recém-nascido abandonado. Sem poder dar de comer à criança, Amador suplicou o auxílio de Deus. Surgiu então uma corça que amamentou a criança até ela poder alimentar-se de frutos e ervas, a dieta seguida pelo eremita. Segundo a crença popular, esta acção do eremita Amador terá ajudado a salvar a criança das garras do Demónio.
Os deuses e os demónios, neste caso, eram os “biodanzantes, que contemplavam toda a natureza envolvente em harmonia, absorvendo o som do vento a projectar-se nas árvores, o chilrear dos pássaros e os aromas imanados pelas plantas, para atraírem os insectos de forma a levarem o pólen e as sementes para outras paragens.
A fluidez dos “biodanzantes” era notória, restabeleciam a energia gasta pelas condições anti-sociais e culturais ao longo da sua vida. Este restabelecimento potenciou as condições necessárias à nutrição, expansão e conservação do Ser e do planeta.
Surgiram alguns adivinhos. Sim, adivinhos, bruxos, feiticeiros, magos, encantadores, curandeiros, macumbeiros… que tentavam descortinar aquilo que não era descortinável – o futuro.
Como se fosse uma procissão, a “manada biodanzante” seguiu em busca de umas ditas sopas. As sopas, nem vê-las, mas em compensação os biodanzantes degustaram alguns petiscos e bebidas típicos de Proença-a-Velha. Gostoso, foi ver e ouvir os adufes tocados pelas beirãs vestidas a rigor, dando continuidade à tradição de um instrumento secular.
Os “biodanzantes” gostam muito de voltar às suas origens. Ficam curiosos por saberem as histórias que estão por detrás de cada elemento do grupo. Neste caso, esse elemento é um ser fabuloso, que abre os braços e acolhe no seio do seu berço o resto do grupo, mostrando-lhe as suas origens e partilhando as suas memórias. A receptiva “manada” fica sempre muito feliz com a dádiva de um quinhão da vida de um dos seus elementos.
Os biodanzantes despediram-se como sempre de uma forma afectuosa, prometendo reagrupar-se dentro de dias para novas aventuras e vivências.

Esta “espécie” de crónica é dedicada ao querido grupo da Biodanza, que muito me tem ajudado a viver a vida, dançando-a.
Bem que posso dizer: A vida gera vida dentro da vida. Por isso, vivam a vida.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Arrifana - Sagres. As etapas "rainhas"

(clicar nas fotos para ampliar) (o menu do blog encontra-se no fim)
A praia da Arrifana foi o ponto de encontro para darmos início aos últimos três dias de travessia na mais bela costa do mundo - pelo menos esta é a minha opinião.
Apesar de ser cedo, a água já estava repleta de surfistas desejosos de apanhar as primeiras ondas do dia. E nós estávamos ávidos do “trepa-destrepa” das falésias. Ao contrário da última etapa, em que o mar estava super-agitado devido à forte nortada, desta vez estava calmo e sereno, com ondas perfeitas para os surfistas.
Atravessamos a praia da Arrifana e atacamos de imediato a primeira subida, a um ritmo bastante acelerado. As vistas, as flores, os cheiros e a temperatura no alto da falésia são um bom presságio para o que se antevê para a frente. Depois dessa primeira subida, temos de rodar um pouco para o interior, para, de seguida, começarmos a descer por um caminho ladeado de estevas em flor, em direcção à praia do Penedo. Mas antes de lá chegarmos, admiramos aquele que será talvez o melhor cenário de toda a Costa Vicentina. A Sul, consegue-se ver toda a costa, retalhada pelo mar e vislumbrando-se, aqui e ali, alguns areais. A Norte, um esporão enorme emerge do meio do mar, como se um rinoceronte ali estivesse a fazer mergulho e deixa-se apenas ver o seu chifre. A Ponta da Agulha é uma formação rochosa com a forma de esporão, que resistiu às investidas incessantes do mar, ficando isolada da terra. Na Irlanda existe uma formação rochosa muito semelhante, são as chamadas falésias de Cliffs of Moher. A diferença é que, enquanto na Irlanda se paga para ver essa paisagem e os portugueses até lá vão vê-la (eu fui um deles), na Costa Vicentina pouca gente repara nesta esplêndida formação rochosa de tom ocre e cinza. A questão que aqui coloco não é a da comparação da beleza dos dois locais, mas sim a indiferença que os portugueses por vezes demonstram perante as belezas naturais do seu próprio país. É o típico negativismo português, que leva a dizer que não temos nada que preste e que o que é lá de fora é sempre melhor...
A praia do Penedo não podia ter um nome mais apropriado dado os enormes seixos negros redondos e polidos pela água que, molhados, brilhavam intensamente com os raios de sol.
Seguimos pelo meio dos seixos e de algumas formações rochosas cheias de algas, até entrarmos na praia de Vale Figueira, com o seu enorme areal. Percorremos toda a extensão de areia até que, à nossa frente, surge uma “parede” enorme.
– Onde está o trilho? – Foi a primeira pergunta que toda a gente fez.
Comecei a trepar pelos calhaus soltos e meti-me por uma garganta escondida, onde corre um pequeno fio de água. Um a um, os outros começaram também a subir e a entrar no estreito desfiladeiro. Este era de tal forma esbarradio, que até o pequeno Buda, apesar de ter tracção às quatro patas, derrapava e gania de aflição. Mas o cão não estava mais aflito que aqueles caminhantes que sofriam de vertigens. Quando saímos do espectacular canyon, começou o “frenesim” do sobe e desce.
Para mim a hora do almoço é sinónimo de grande alívio, não por saciar a minha fome, mas por poder despejar a pesada mochila repleta de comida. Como de costume, e para delícia dos 14 caminhantes, a Caminhos da Natureza esmerou-se, e de que maneira, nos petiscos. Mas não há muito tempo para que o estômago deguste a saborosa comida, depressa voltamos ao “trepa-destrepa”, num rendilhado de falésias espectaculares, com o mar agitado a dar ainda maior ênfase.
Sob um sol bastante forte e pelo meio de rosmaninhos, estevas, alecrins e tojos em flor chegamos a uma falésia com vistas soberbas sobre a enorme praia da Bordeira. Com o fim da etapa à vista, uma parte do grupo descontraiu e desfrutou do maravilhoso areal e das bonitas formações rochosas nas falésias. Os outros, como se tratasse de uma maratona, não abrandaram o ritmo e continuaram a caminhar muito depressa. O resto do dia foi passado entre algumas esplanadas na praia da Bordeira e a pitoresca aldeia da Carrapateira, onde se destaca a velha igreja envolvida por uma muralha erguida em 1673, para defesa contra os corsários marroquinos. À noite, para festejarmos o aniversário de uma das caminhantes, deliciámo-nos com os manjares de um restaurante típico da Carrapateira. Eu comi uma deliciosa massada de peixe, para regalo do meu palato.
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A maior etapa de toda a travessia da Costa Vicentina prometia vir a ser quente, o vento que soprava de Leste não enganava. No início seguimos por um trilho de areia junto à ribeira da Carrapateita, até voltarmos a caminhar sempre junto à costa. Entre a praia da Carrapateira e a praia do Amado, a progressão é muito rápida e sem dificuldades. As falésias são muito instáveis e estão constantemente a desmoronar. Numa pequena reentrância abrigada, na frágil falésia, surge um miniporto de pesca improvisado. É uma imagem um pouco surreal, que me fez lembrar alguns locais piscatórios em Cabo Verde, onde os pequenos barcos são pendurados nas falésias, seguros apenas por toscas estruturas de madeira, que nas marés altas ficam quase submersas.
“São mais que as mães”, é o primeiro pensamento que se tem quando se chega à “Meca” do surf, a praia do Amado. O mar estava repleto de surfistas, ávidos de apanhar todas as ondas.
Atravessamos a praia e subimos um areal, depois seguimos pelo meio de mato, até ao monte do Engenheiro, onde existe uma daquelas casas que é o sonho de qualquer um, não pela casa em si, mas pelo local privilegiado, com vistas fabulosas sobre toda a costa e o Atlântico.
Voltamos a descer para uma pequena praia para, de seguida, atacarmos uma subida de dificuldade bastante elevada, imprópria para cardíacos, mas que todos, com maior ou menor dificuldade, conseguiram superar. Mais uma vez as vistas são soberbas, as plantas libertam uma quantidade de aromas enorme que, fundidos, dão origem a uma fragrância única e maravilhosa. A Primavera encontrava-se no seu expoente máximo.
Mas não há tempo para descansar, temos de descer, para logo voltar a subir bem alto e de novo voltar a descer, para as isoladas praias da Murração e Carneiro, encaixadas em vales de rara beleza. Como estava bastante calor, não resisti e dei um mergulho nas águas geladas. Soube-me tão bem!
Nessa altura já tínhamos a companhia de duas simpáticas holandesas que andavam a fazer a travessia em autonomia, há diversos dias. Como andavam um pouco perdidas, devido a um mapa com pouca precisão e à dificuldade em encontrar os trilhos correctos, convidei-as a juntarem-se ao grupo.
De volta ao caminho, continuamos o “trepa-destrepa”, até chegarmos a um trilho muito exposto na falésia. Feito por pescadores, é daqueles de ficar sem respiração. Todo o cuidado é pouco, e tem de se pôr um pé de cada vez, pois é impossível colocar os dois pés juntos. Se viesse uma pessoa de frente, seria praticamente impossível cruzar por ela. Fez-me lembrar um pouco quando se anda na crista do gelo ou na neve, e tem de se fazer contrapeso com a outra pessoa para se poder cruzar.
Passadas as emoções, fomos um pouco para o interior. Devido à ausência de trilhos junto à falésia, seguimos por um estradão. O facto de o caminho estar ladeado de estevas em flor, tornava-o até agradável.
Descemos para a enorme praia com cerca de três quilómetros. Apesar de o areal ser o mesmo, são três praias distintas: Barriga, Cordama e Castelejo.
Bem que se pode dizer: isto é que é vida! Dar uns mergulhos, apanhar banhos de sol e comer os petiscos gourmet preparados pela Caminhos da Natureza.
Depois de “jiboiar”, devagar, devagarinho, continuámos a caminhar pela praia. De seguida – e para surpresa de algumas pessoas que estavam sentadas numa esplanada de olhos esbugalhados, a pensar o que é aqueles malucos andam por ali a fazer em vez de estarem a curtir o “solzinho” e a beber uma cerveja na esplanada – atacámos uma encosta muito inclinada. Uma das holandesas nem queria acreditar, só dizia: «What! This is the way?»
A paisagem muda radicalmente. Deixamos as falésias e entramos num fabuloso bosque de pinheiros-anão, atravessado pela ribeira do Marinho; segue-se uma zona de pasto, onde as vacas se deliciavam com a erva muito verde.
Uma das holandesas estava vermelha que nem um pimentão e aparentava estar muito cansada, perguntei-lhe se se sentia bem, ao que ela me respondeu: «Do not worry, I´m like a diesel engine. I walk slowly, but I can handle a long time.»
O comentário dela tinha toda a razão de ser. Ao caminharmos, temos de encontrar o nosso próprio ritmo e nunca imprimir um andamento que não consigamos acompanhar. Tal como na vida, há que encontrar o ritmo certo.
Descemos os prados ondulantes ao sabor do vento e chegamos a Vila do Bispo para o merecido descanso. Tinha ficado para trás a mais longa e espectacular etapa de toda a travessia.
Antiga terra de bravos e corajosos navegadores, pareceu-me um pouco triste e abandonada; os moinhos de vento sem as velas são sinónimo disso. No entanto, a gastronomia local é muito rica e há uma variedade de restaurantes muito grande. Mas não é só pela comida que estes se diferenciam. Um deles tornou-se conhecido pelo mau humor da dona e pelo péssimo atendimento, mas consta que a comida é divinal. Outro é conhecido por ser um slow food, mas para além de ser slow de mais, tem também um péssimo atendimento – e eu e alguns amigos já o sentimos na “pele”.
Desta vez acabamos por jantar num pequeno e simpático restaurante; mas pequeno só o espaço, doses de comida eram enormes. A sopa de peixe fez a delícia de todos.
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Começamos a caminhar bem cedo. O vento moderado de Leste empurrava-nos de volta para as falésias. Os primeiros quilómetros, até perto da Torre da Aspa, são feitos por estradões. A antiga torre foi construída como ponto de vigia e fica na zona mais alta de toda a Costa Vicentina. As poucas árvores existentes junto ao caminho, devido ao forte vento que as fustiga incessantemente, sem tréguas, têm formas singulares.
Caminhamos até que o imenso planalto dá lugar a abruptas falésias.
A juntar ao forte aroma e colorido das estevas, apareceram milhares de mariposas, talvez um pouco desorientadas devido ao forte vento vindo de terra.
Os tons avermelhados e amarelados das falésias são fabulosos, e justificam e bem o nome praia da Ponta Ruiva. Apesar do pouco desnível, o piso é muito irregular. O “caos” de pequenos blocos de calcário massacrava, e de que maneira, os tornozelos. Um bom calçado torna-se necessário para precaver lesões. Por vezes, parecia que o Cabo de São Vicente estava perto, mas não passava de uma ilusão, ainda tivemos de caminhar um bom bocado.
Finalmente tínhamos chegado ao “fim do mundo”, como era apelidada a extremidade mais a Sudoeste da Europa continental. De facto a terra acaba mesmo e a imensidão do mar não deixa de ser impressionante. Os romanos chamaram ao local lugum cineticum, o lugar onde o sol era cem vezes maior, fazendo ferver o mar.
Tal como o infante D. Henrique, que aguardava pelas naus e festejava quando chegavam com novidades das novas terras, nós brindámos com champanhe a nossa chegada ao cabo após nove etapas por aquela que é a mais bela costa do planeta Terra.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Volta Selvagem

. (clicar nas fotos para ampliar) (o menu do blog encontra-se no fim)
É disto é que eu gosto. Andar três dias com os chinelos presos ao quadro da bicla e uma mochila de 20l com a água, umas barras de cereais, a escova de dentes e uma pequena muda de roupa para a noite. De resto, é só pedalar e desbravar trilhos e caminhos desconhecidos.
O Tó baptizou esta volta como a Volta Selvagem, pois a maior parte do percurso é feito nas zonas mais inóspitas e inabitáveis de Portugal, que felizmente ainda existem.
Deixámos o carro em Monforte da Beira e fizemos aquilo que o GPS nos mandava fazer, seguir por um caminho pelo meio do montado de azinheiras e carvalhos. Os primeiros quilómetros são muito rápidos. Sempre em talega, palmilhamos efusivamente os bonitos caminhos com muito bom piso, até chegarmos à ribeira do Aravil, onde três espectadores atentos nos observavam, à espera que déssemos alguma queda ao atravessar a ribeira. Apesar de os termos decepcionado, os homens não deixam de nos incentivar ao ver-nos a superar tamanha subida depois da ribeira.
Depois de passarmos pela minúscula aldeia de Cegonhas, subimos para um planalto de onde voltamos a ter vistas soberbas. Ao passarmos perto do Rosmaninhal, vimos um trilho encaixado no vale e, como não conseguimos resistir, desobedecemos às indicações do GPS e metemo-nos por ele. Descemos até bem perto do Tejo, junto ao Monte Barata, onde a Quercus tem umas pequenas casas de apoio ao Parque Natural do Tejo Internacional, e inclusive tem um espaço com cerca de 25 camas e uma cozinha. O local é muito agradável para passar uns dias de férias a caminhar e a observar veados, javalis e as muitas aves existentes no parque.
Voltamos a apanhar o belo e selvagem trilho, que a certa altura se torna bastante técnico, fazendo com que o Tó continuasse a saga do Super-Homem, ao tentar fazer um voo rasante sobre umas pedras aguçadas. Felizmente a frustrada imitação limitou-se a umas pequenas escoriações.
A aldeia do Rosmaninhal não podia ter um nome mais adequando. As extensas áreas de rosmaninho em flor, para além dos deliciosos aromas, proporcionam um cenário muito bonito. Não passamos pela aldeia e continuamos num constante sobe e desce, quase sempre por entre velhos carvalhos e azinheiras.
O montado dá lugar a extensas áreas de estevas em flor, que libertam o típico odor que se entra na nossa roupa. As estevas continuam por áreas intermináveis, acompanhando-nos no sobe e desce, até que descemos para o vale do rio Erges. Apesar de não o atravessarmos – o que é impossível devido à forte corrente –, tivemos de rastejar para atravessar uma vedação e logo de seguida passar uma ribeira. A carta militar dizia que havia um caminho, mas este não passava de uma utopia. Assim, tivemos de improvisar um caminho para sair do vale. Encontramos um trilho feito por javalis e, que nem uns “javalis”, lá fomos furando as estevas que, ao se prenderem nas bicicletas, dificultavam a progressão. Felizmente eu tinha perneiras, que me protegiam das arranhadelas das urzes; mas o Tó não tinha, e não tardou muito a ter as pernas quase em chagas. Afinal de contas estávamos na Páscoa, portanto, as chagas do Tó até estavam enquadradas no espírito da época.
Ao fim de meia hora começou a aparecer um trilho e começámos a pedalar, mas por pouco tempo. Um cavaco mais afiado espetou-se no pneu e este vasou, e como o líquido do tubless não conseguia tapar tamanho buraco, tive de meter uma câmara-de-ar.
Finalmente a pedalar. Voltamos a entrar numa zona bastante frisada, mas um pouco feia devido aos eucaliptais. De seguida, apanhamos uma estrada muito secundária e, empurrados pelo forte vento de Noroeste, chegamos num ápice a uma calçada romana que nos levaria até à bonita vila de Segura. Apesar de ser bastante bonita, por vezes as casas “típicas” dos emigrantes destoam. Estes vêm “iluminados” das novas terras de adopção e metem-se a construir casas gigantescas com arquitecturas bastante desenquadradas e feias, na minha opinião. É natural que os emigrantes queiram evidenciar o seu sucesso, pois a vida foi-lhes muito difícil, mas penso que as autarquias podiam colocar um pouco de bom senso nessas pessoas, ou pelo menos fazerem um plano urbanístico mais adequado e mais real, para preservar a bonita arquitectura raiana.
A saída de Segura é feita por um bonito caminho ladeado por muros de pedras, mas não tardou muito a ficarmos sem caminho. Ou eram as vedações, ou os caminhos que simplesmente deixavam de existir. Com o abandono dos campos é natural que os caminhos desapareçam ou fiquem em muito mau estado. Tivemos de voltar para o asfalto, para fazer mais uns quilómetros até Salva Terra do Extremo.
Para além dos dois ciclistas, um pouco insanos, passaram por Salva Terra do Extremo Romanos, Visigodos e Muçulmanos, até que no tempo de Afonso Henriques ficou estabelecida a actual fronteira. Para defender o território, este rei mandou erigir um castelo, que agora não passa de um vestígio, apenas perceptível numas pequenas ruínas, ao contrário do castelo de Zarza la Mayor, do outro lado do rio Erges. Pareceu-me que os espanhóis estiveram melhor, pelo menos no que diz respeito à resistência dos castelos. Quanto a nós, podemos ter perdido o castelo, mas temos penedos, castanheiros, carvalhos, azinheiras e trilhos muito mais bonitos. “Betetamos” em redor da vila por trilhos de pedra centenários. São fabulosos, mas exigem a aplicação da nossa massa muscular para superar as íngremes subidas. O caminho entre Salva Terra do Extremo e Termas de Monfortinho é uma “delícia”, voltamos a andar em talega a alta velocidade.
Bem que podíamos ser intitulados os betetistas vaqueiros. Durante um quilómetro, fomos fazendo de vaqueiros a uma manada de vacas estramalhadas que corriam desenfreadamente à nossa frente. Foi o delírio, felizmente elas não se viraram para nós e ao fim de algum tempo saltaram uma cerca e foram à sua vida.
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O caminho voltou a desaparecer e tivemos de atravessar um enorme campo de pasto, com terreno muito esburacado, que massacrou, e de que maneira, os meus glúteos. O dia já ia muito comprido e as Termas ainda estavam um pouco longe. Andamos o mais que podemos até que optamos por ir para a estrada, pois já era de noite.
A senhora da residencial Pensão Familiar era muito simpática, serviu-nos uma terrina de sopa e umas postas de bacalhau assado com “meio metro de espessura”, muito bem guarnecido. Jantar, dormida e pequeno-almoço custaram só 30 euros, uma pechincha.
Estávamos bastante cansados, tínhamos saído de Lisboa às 6h30 e começado a pedalar em Monforte da Beira pelas 9h. A “betetada” tinha rendido cerca de 2800m de acumulado de subida e pedalados 105km de distância.

Deixamos as Termas de Monfortinho e metemo-nos por um caminho que acompanha por 20km o rio Erges. Este rio faz a fronteira entre Portugal e Espanha por muitos quilómetros, desde onde ele desagua no Tejo até mais a jusante, bem perto da Serra da Malcata. Penso que nasce na Serra da Gata, que é uma continuação da Serra da Malcata no lado Espanhol.
A paisagem que ladeia o rio é muito bonita, tanto do lado espanhol como do português. De vez em quando passam que nem “mísseis” veados assustados pela nossa presença. Desde a zona do Tejo que era frequente vermos veados fora das vedações dos coutos de caça. Uma grande parte do Tejo Internacional percorrida no dia anterior e toda a zona em redor das Termas de Monfortinho pertencem a um grupo bancário. Este grupo é daqueles que “choram”, pedem dinheiro ao Estado e “esfolam” os seus clientes, incluindo eu. São tão pobres que compram áreas enormes e vedam-nas com redes que mais me fazem lembrar um campo de concentração. Tudo isto para que os ricos possam divertir-se com a matança indiscriminada dos indefesos bichos. Sei que a caça está enraizada na cultura portuguesa e que é inevitável, eu próprio sou filho de caçador e como comida proveniente da mesma. Mas uma coisa é fazer uma matança só para satisfazer o ego dos caçadores, outra coisa é matar para o sustento, ou para fazer um petisco para o convívio com os amigos. Por outro lado, também admito que a criação de reservas veio trazer o repovoamento de muitas espécies que já escasseavam por doenças ou por terem sido caçadas até quase à extinção. Claro que o pretexto das reservas e de recuperar o número de animais se deve sobretudo a uma questão de euros, pois isto tudo resume-se à obtenção de lucro e não à essência principal do assunto, que é a preservação dos animais. Em conclusão, é estranho o amor que o homem tem pelos bichos, ao criá-los, mas, depois, mata-os sem hesitar, só por diversão.
Por algumas vezes, tivemos de transpor as cercas para continuarmos. Deixamos a bonita margem do rio e subimos para um planalto bastante árido, onde predomina o eucalipto, mas até este tem dificuldade em crescer num solo extremamente pobre. Deixamos o planalto e começamos a subir lentamente para a Serra da Malcata. O piso piora um pouco e torna-se bastante inclinado. Não imagino subir a serra em dias de calor, deve ser para “destilar”. Superada a primeira subida, o caminho segue num sobe e desce constante, ao longo da fronteira de Espanha. Como existe um caminho de cada lado da fronteira, por vezes, eu e o Tó pedalamos lado a lado, em países diferentes.
A Serra da Malacata é talvez o local mais isolado e selvagem de Portugal. Predomina o mato característico das montanhas e o pinheiro, que tem sido dizimado por um estranho vírus. A lagarta do pinheiro também é uma constante; por vezes a copa dos pinheiros mais me parecem um campo de cardos em flor.
Percorremos a serra ao longo de muitos quilómetros e começamos a descer para a aldeia da Malcata. Já tínhamos feito 60km e ainda não tínhamos visto vestígios humanos, nem um carro, nem uma casa, praticamente nada, a não ser um pastor no alto da serra. Em Malcata aproveitamos para saciar a fome, que já era muita.
Tivemos de seguir por estrada. As cartas desactualizas não mostravam a barragem que foi construída recentemente, mas não demorou muito a entrarmos num caminho. E que caminho! Gigantescos penedos e pequenos carvalhos fazem deste local um ex-libris para o BTT. Voltamos a andar muito depressa. O caminho era fabuloso e muito rápido, mas não deixava de ser técnico, com alguns saltos e “releves”. Caminhos assim são um gozo e fazem-nos “voar”.
Num ápice chegamos a Sortelha. Na minha opinião é talvez a aldeia mais bonita de Portugal. O castelo, erguido num alto, dá a ideia que se vai precipitar para o vale de Riba Côa. Atravessamos a vila, toda ela muito bem cuidada, com as suas casas em granito, confundindo-se por vezes com os enormes penedos. Do castelo as vistas são soberbas, avista-se desde a Serra da Malcata até à Serra da Estrela, que estava branca devido ao nevão dos dias anteriores. Na zona em redor do castelo faz-me impressão ver tantos carros. Fico um pouco irritado, admira-me como é que em locais históricos, como é o caso de Sortelha, permitem o trânsito a automóveis de pessoas não residentes. O problema não está só no facto das identidades responsáveis o permitirem, mas também na “mania” que as pessoas em Portugal têm de tentar levar o carro até onde podem; neste caso, quase que entram dentro do castelo.
Deixamos a fabulosa vila por uma calçada romana, daquelas de fazer estremecer o corpinho todo. Não admira que os neolíticos se tenham instalado nesta zona há uns milhares de anos, é mesmo a terra da pedra. E nós parece que voltámos a entrar na Idade da Pedra: só que eles partiam as pedras para as usarem como utensílios e nós destruíamos as biclas e massacrávamos o esqueleto todo. Pode-se dizer que eles eram bem mais inteligentes que nós, pelo menos não davam cabo do “cabedal”.
Após a demolidora descida, seguimos pelo vale num misto de caminhos e estrada muito secundária, acompanhando, por vezes, uns canais de água. Chegamos a Benquerença e aproveitamos para abastecer os famintos estômagos.
De Benquerença até Penamacor tivemos de atravessar uma pequena serra dominada totalmente pelos eucaliptos. Pelo contrário, a subida e entrada na vila de Penamacor é bastante agradável, por um caminho ladeado de velhos sobreiros.
Na terra de Vamba, famoso rei dos Visigodos, que governou a Península entre 672 e 682, ficámos alojados numa estalagem com mais de duzentos anos. A senhora que nos acolheu era muito simpática, mas falava, falava, falava... Ficámos a saber a vida dos filhos, pais, avós, irmão, sogros, cunhados, cunhadas, vizinhos, etc., etc. Apesar da idade já um pouco avançada, ela toma conta da velha estalagem sozinha, mantendo-a muito bem cuidada.

O pequeno-almoço foi soberbo, a senhora apaparicou-nos ao máximo, servindo-nos um manjar delicioso.
Deixamos Penamacor, nome que uma lenda diz provir de um célebre bandido chamado Macôr. Dizem que o salteador vivia numa caverna com o nome de Penha. Com o passar do tempo, o nome alterou-se para Pena, ficando a terra a ser conhecida por Penha de Macôr ou Pena Macôr. Outra versão da lenda sobre a origem do nome da vila, diz que este provém de uma luta feroz entre os seus habitantes e salteadores. Essa luta deu origem a um tal derramamento de sangue que, de tão má cor que tinha, a vila ficou a ser conhecida por “Penha de má cor”.
O caminho é fabuloso. Com o piso em bom estado, rolamos depressa pelo meio de muros de pedra ainda intactos e bem cuidados. A subida para a Serra do Ramilo é feita por um corta-fogo. Que nem uma “burra” teimosa, a bicla não quer fazer tamanha subida devido à forte inclinação e ao mau piso, mas não é mais teimosa do que eu.
Pedalar na crista da Serra do Ramilo é muito bonito, as vistas são sempre fabulosas, vislumbrando-se em redor as montanhas e planícies. Ao longe avistamos Monsanto. Eu e o Tó baptizamo-lo com o nome de “calhau”, pois o pico, com os seus 758 m de altitude e toda a sua envolvência, faz parecer que se trata de uma única rocha.
A descida da Serra do Ramilo até começarmos a subir para Monsanto é feita velozmente, mas a subida para Monsanto é que já não foi bem assim. O nome “calhau” não podia ser mais bem aplicado. A subida é feita pela milenar calçada romana, ladeada de enormes penedos e sobreiros centenários. O meu traseiro reclama, e de que maneira, devido ao trilho muito pedregoso.
Os poucos quilómetros feitos nos últimos tempos começam a fazer “moça”; o meu corpo já não estava habituado a tamanhas distâncias e a tantas horas em cima da bicla. A má preparação, o mau piso e o forte desnível fazem da subida um desafio enorme, que pouco a pouco foi superado pelos cansados músculos que não paravam de reclamar.
A descida da aldeia do Monsanto é fantástica, é feita por um trilho de calçada romana ladeado por gigantescos sobreiros. O meu “esqueleto” é que não achou muita graça. O acidentado relevo do piso faz com que a suspensão da bicla não consiga absorver a forte irregularidade da calçada, fazendo com que o meu corpo se torne num verdadeiro amortecedor. (É nestes momentos que sonho com uma suspensão total!)
Depois do “calhau”, descemos velozmente até à antiga aldeia de Idanha-a-Velha. Já perdi a conta ao número de vezes que passei por esta maravilhosa aldeia, no entanto, ela continua a exercer um enorme fascínio sobre mim, quer pela beleza da aldeia em si, quer pela paisagem que a envolve. Paramos numa tasca para comer uma deliciosa sandocha de queijo de cabra bem fedorento.
Deixamos Idanha-a-Velha e subimos para um planalto, onde rolamos até Alcafozes. Esta aldeia no meio do nada tem a particularidade de ter uma ermida­-santuário dedicada a Nossa Senhora do Loreto, a padroeira da aviação. A testemunhar este facto encontrar-se no recinto das festas um avião T-37C, pertencente aos Asas de Portugal.
Cerca de oito quilómetros depois, passamos pela Igreja da Sr.ª do Almortão, de grande devoção entre as gentes rainas. Duas semanas depois da Páscoa, é costume fazerem uma enorme romaria em devoção à santa. Uma coisa que me fez imensa impressão e mais uma vez me deixou irritado foi o facto de terem feito uma estrada de duas faixas, com rotundas enormes com saídas para o meio do descampado (deve ser para o trânsito do gado), num local onde só existe a pequena igreja e cuja aldeia mais próxima fica a mais de oito quilómetros. Fizemos parte dessa estrada e durante o percurso não passámos por um único carro, e era dia de Páscoa! Passamos apenas por uma hippie que deambulava por ali de bicicleta. Todo o alcatrão foi colocado só para três dias de festa. Bem que se pode dizer que é o alcatrão e Portugal no seu melhor.
Fizemos alguns quilómetros junto ao rio Ponsul, numa zona de grande exploração agrícola, principalmente pecuária. Pedalávamos tranquilamente até que apareceu um boi, que teimava em não sair do caminho. Quando se dignou a andar, entrou numa cerca onde estavam as vacas e as crias, gerando o caos e pondo o gado todo num alvoroço. A dada altura as crias passaram pelo meio da vedação e foram para outra cerca, do outro lado do caminho. Quando demos por isso estávamos encurralados entre as vacas e os bezerros, numa posição muito crítica. A qualquer altura as vacas podiam investir sobre a cerca e logo de seguida sobre nós, para poderem chegar às suas crias. Subitamente as nossas dores musculares desapareceram e pedalámos mais do que nunca para sair daquele local que estava prestes a ser varrido por uma manada.
Livres daquela situação, não tardou a aparecer-nos outro boi no meio do caminho, com a cabeça colocada para baixo e com aquele olhar de quem vai investir a qualquer momento. Eu não esperei muito, atirei a bicla para o outro lado da cerca e, que nem uma mola, saltei. O Tó resolveu defrontar o bicho e, por incrível que pareça, este continuou na mesma posição enquanto o Tó passava a uns escassos 2 metros de distância dele.
Não demorou muito até chegarmos ao Ladoeiro e logo de seguida, vestidos a rigor, passámos pelo meio do arraial. À medida que nos íamos afastando da vila, ainda escutávamos a música pimba que ecoava pelos montes e vales.
O caminho volta a ser fabuloso. Empurrados pelo vento, pedalamos a alta velocidade pelo meio do montado até voltarmos ao rio Ponsio, para logo de seguida subirmos para um bonito planalto de montado e finalmente voltarmos para Monforte da Beira, onde o carro nos esperava para regressarmos a casa.
Custou-nos mais a viagem de regresso a casa do que os 350km de travessia feitos nos três dias. Era dia de Páscoa e o trânsito estava infernal, se continuássemos a pedalar era muito provável que chegássemos mais cedo a casa.
Foram três dias magníficos, pelos caminhos e trilhos mais selvagens de Portugal. A zona da Raia é toda ela muito bonita, é onde se encontram as aldeias mais antigas e típicas do nosso país, foi onde se travaram inúmeras batalhas desde o paleolítico até à definição da fronteira actual. No entanto, a grande batalha neste momento é a desertificação humana e do solo que assola aquela maravilhosa região.

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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Odeceixe - Arrifana

E a travessia continua.
. (clicar nas fotos para ampliar) (o menu do blog encontra-se no fim)
Deixamos os carros em Odeceixe e começamos logo a subir pelo meio da bonita e pitoresca aldeia, até chegarmos aos canais de água, que servem de irrigação para os morangais. O facto dos morangos estarem tão brilhantes, reluzentes e perfeitos, evidenciam a quantidade de químicos colocados pelos produtores. Para além dos pesticidas, insecticidas e fertilizantes usados, os agricultores enterram alguns plásticos usados nos morangais.
Finalmente voltamos às falésias. Apesar de serem muito escarpadas a parte de cima é bastante arenosa, repleta de flores amarelas, roxas, lilazes, etc. Para onde quer que olhássemos era uma orgia de cores, sem dúvida um cenário fabuloso, nem o forte vento conseguia levar os fortes aromas da primavera.
Em contraste, o mar estava bastante agitado com a nortada que se fazia sentir cada vez mais forte. A nossa sorte é que o vento soprava por trás, ajudando-nos por vezes na nossa progressão nas difíceis subidas que se iam sucedendo. Algumas das descidas e subidas eram bastante difíceis, obrigando a maior parte dos caminhantes a rastejarem de cu para descerem e a treparem com a ajuda das mãos para subirem, mas com mais ou menos dificuldade o grupo ia superando bravamente todas as dificuldades impostas pelo rugoso terreno com vales bem fundos.
Depois da degustação gourmet proporcionada pela Caminhos da Natureza na praia Vale do Homem, voltamos a enfrentar mais umas subidas muito escarpadas, o que levou o grupo a protestar ou melhor, exigir um novo almoço gourmet, pois, perante tanto esforço o anterior já tinha sido digerido.
A dada altura fomos obrigados a contornar a falésia um pouco mais pelo interior por questões de segurança. Nos vales que desembocavam no mar, o vento afunilava e tornava-se ainda mais forte. Numa escarpada subida, junto à falésia, as fortes rajadas de vento tornavam impossível a progressão em segurança, como tal fomos obrigados a procurar uma outra alternativa mais para o interior.
A Primavera manifesta-se junto à costa com todo o seu esplendor, fores e mais flores. As mais de 700 espécies de plantas estão no seu máximo, como fosse um concurso e os júris fossemos nós ou os insectos que trabalham incessantemente na recolha de polén.
A dada altura deixamos a costa e dirigimo-nos pelo meio do pinhal e depois por campos agrícolas até à aldeia do Rogil.
O Rogil é conhecido pelo seu maravilhoso pão e também pela deliciosa pastelaria que é
daquelas que fazem “apodrecer” os dentes, no meu caso será mais a oxidação dos ferrinhos do aparelho que tenho na boca.
No fim do dia, nós os “puristas”, como dizia a Teresa, fomos de bicla buscar os carros para depois coloca-los no fim da etapa do dia seguinte e de seguida regressarmos novamente de bicla até ao Rogil. Chegamos ao hotel, já com a iluminação das estrelas, mas nós gostamos é disto, esticar o dia até ao limite.

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Após mais um pequeno almoço daqueles em que aumentamos consideravelmente o diâmetro da barriga, começamos a caminhar junto aos intermináveis canais de água. Tal como o Alqueva que se arrisca a ser um gigantesco elefante branco, estes canais já o são há muito tempo, devido ao seu subaproveitamento.
Depois do planalto descemos para a praia da Amoreira. O mar muito agitado durante o último inverno “comeu” imensa areia em todas as praias e esta não é excepção.
Foi a altura de ir a banhos, não pelo calor nem pela temperatura da água que continua gelada, mas porque tínhamos de atravessar a ribeira que tinha um caudal considerável. Pode-se dizer que foi a “cueca-party”, pois a água chegou-me até quase à cueca e a água estava fria como tudo, mesmo muito fria.
Até chegarmos à bonita aldeia e praia do Monte Clérigo andamos junto à falésia por um piso pedregoso muito irregular, daqueles que dão cabo dos tornozelos.
A partir do Monte Clérigo, voltamos a andar por um trilho bastante arenoso mas ladeado por vegetação rasteira muito bonita, que era varrida sem tréguas pelo vento que voltava a soprar com bastante intensidade.
Não demorou muito a chegarmos à Ponta da Atalaia. Este pequena península, delimitada por altas escarpas que caem vertiginosamente no oceano.
A Ponta da Atalaia tem um aglomerado de ruínas que datam do ano 1130. São os vestígios do Ríbat da Arrifana, uma espécie de convento-fortaleza fundado pelo árabe Ibn Qasî. Apesar de não estar virado para Meca, tenho de admitir que o árabe escolheu um local fabuloso para rezar e meditar, ou o quer que eles faziam naquela altura.
Após comermos mais uns deliciosos petiscos junto às ruínas, a muito custo continuamos. O nosso cérebro tinha dado ordens para irrigar os músculos do estômago e não o das pernas. Eu, e o guia, passamos a ser os maus da fita, por contrariarmos os preguiçosos cérebros.
Após alguns vales chegamos a um pequeno memorial escrito em alemão, onde tem gravado sete marcas em forma de um traço. Estas marcas correspondem a sete alemães que pilotavam um avião Focke- Wulf, e foram abatidos pelos aliados em 1943. Consta que 25 navios dos aliados deslocava-se ao longo da costa, protegidos por uma esquadra de aviões. Reza a história que o faroleiro do Cabo de S. Vicente era espião dos alemães e como tal informou-os sobre a passagem dessa frota. Quando a frota foi atacada, esta foi prontamente defendida pela aviação inglesa que acabou por destruir um dos aviões nazis, explodindo em mil pedaços no ar. Os sete soldados foram sepultados e tiveram honras de estado, donde assistiram às cerimonias os cerca de 6000 habitantes da vila de Aljezur. Apesar da dita neutralidade de Salazar, este tanto apoiava um lado como o outro. Para bem e para o mal, graças a ele este foi o único episódio de guerra em Portugal durante a Segunda Grande Guerra Mundial.
O trilho continuou pelas falésias negras constituída por rijos xistos, caprichosamente recortados ao longos dos tempos.
A dada altura separei-me do grupo. Eles, subiram até ao vale até ao Vale da Telha, para depois descerem para a Ariifana. Eu continuei sozinho, para poder fazer o reconhecimento de um segmento de costa que até à data era de difícil acesso. Felizmente consegui encontrar um trilho que dava para transpor um vale bastante escarpado e poder subir, para o que resta do forte de origem árabe. Soube-me mesmo bem caminhar um pouco sozinho sem ter de estar preocupado com a segurança e bem estar do grupo. Também não tive de passar pelo Vale da Telha, que é um local feio e de construção desenfreada, que por sinal está situado em plena zona protegida do parque, enfim!!
Do forte da Arrifana as vistas são fabulosas, tanto para Norte como para Sul. Fiquei um pouco a contemplar tamanha beleza, antes de descer para me juntar ao resto do grupo que entretanto tinha chegado.
A travessia da Costa Vicentina, segue dentro de dias.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Cabo Sardão - Odeceixe


(clicar nas fotos para ampliar) (o menu do blog encontra-se no fim)
Já não sei número das vezes que fiz esta pequena travessia a pé, no entanto, continua a ser para mim como que se fosse a primeira vez. Digo isto porque todas as vezes que a fiz, apanhei condições meteorológicas diferentes, principalmente o estado do mar, que molda toda a paisagem envolvente. Este pequeno troço faz parte da travessia da costa Vicentina organizada pela
www.caminhosdanatureza.com, que começa em Porto Corvo e termina em Sagres.

Esta etapa começa na Ponta do Cavaleiro no Cabo Sardão junto ao farol. O farol, com quase 100 anos tem uma particularidade bem à portuguesa. Foi construído ao contrário. A torre que suporta o farol, em vez de se situar na parte ocidental do edifício junto ao mar, fica na parte oposta, com a torre virada para Leste. Claro que isto não afecta em nada a navegação pois a faixo de luz faz os 180 graus. Todos os faróis semelhantes em Portugal estão com a torre virada para o mar, dando a sensação que o projecto era o mesmo para todos os faróis. Especulando um pouco, dá a sensação que o responsável pela construção deste farol, virou a planta do projecto ao contrário e mandou construir a partir dessa posição.

O percurso foi sempre feito junto às imponentes e íngremes falésias. De vez em quando, os que tem mais vertigens e os que não se sentem em segurança, optaram por caminhar um pouco para o interior.
A beleza deste local é impar, mas muito pouco desfrutada. Estas falésias fazem-me lembrar um pouco as Cliffs of Moher, que são mais ou menos semelhantes. A diferença é que os irlandeses têm uma estrutura de apoio bastante boa para quem as visita, trilhos marcados e alguns serviços de apoio. Outra grande diferença é que se paga e bem para lá ir, enquanto aqui, bem perto, está esta maravilha geológica esculpida ao longo dos anos pelos elementos naturais. Por vezes parece-me que esteve aqui um gigante com força suficiente para “torcer” as falésias, originando nas rochas formas e desenhos únicos onde por vezes se destacam por vezes veios de cor de cristal cravados na rocha. Às vezes aparecem paredes lisas, que mais parecem escorregas gigantes, deveria ser um escorrega bem abrasivo para o meu traseiro.
A única dificuldade do dia foi a descida para o Porto das Barcas. A descida estava guardada por um pequeno escorpião que fez bravamente frente a alguns mamíferos que o tentavam imitar ao rastejarem de cu pela inclinada descida.
O Porto das Barcas é uma pequena baia no meio das falésias onde construíram um pequeno molhe de abrigo para as pequenas barcaças. Percorremos esse molhe até ao fim. Sob um sol radioso e uma temperatura amena, petiscamos um delicioso petisco gourmet preparado pela Caminhos da Natureza.
A leve brisa e o som da rebentação das ondas, convidava a uma sesta, mas tínhamos de continuar. O porto das barcas é um local agradável, a única coisa que destoa neste local é a quantidade de lixo deixado pelos pescadores. Redes, cordas, anzóis, fios, grades de plástico, peixe podre, etc. Se eles deixam este lixo todo aqui, não posso deixar de imaginar o que deitam ao mar. Sei que é um pouco difícil mudar os hábitos das pessoas mais velhas, neste caso dos pescadores, porque durante toda a vida fizeram sempre a mesma coisa e há muitos anos eles não tinham a noção dos perigos inerentes à poluição. Penso que aqui, existe principalmente uma falta de educação e de incentivo para que os pescadores tomem consciência dos actos que cometem. Os pescadores são os primeiros prejudicados pela contaminação e consequentemente falta de peixe. Uma observação que me inquietou foi de não haver contentores para o lixo, somente existem dois junto a um restaurante a 500mt do porto. Penso que as Câmaras e as entidades do parque têm a obrigação de intervir neste caso.
O trilho continua sempre junto à falésia, em algumas partes temos de ter muito cuidado, um pequeno descuido e era uma vez. Um bom calçado é muito importante para que não se derrape nas pedrinhas soltas.
Por vezes passamos por pequenos riachos que se precipitam a grande altura até ao mar. Algumas cascatas, durante queda, transforma-se num nevoeiro que é empurrado para cima devido às correntes ascendentes, originando por vezes efeitos semelhantes ao de um arco-íris.
Ao logo das falésias é uma constante os ninhos da cegonhas brancas, em locais onde havia uma maior concentração nós baptizamos alguns locais por “condomínio de cegonhas”, tal não é o lugar privilegiado onde se encontram. Muitos desses locais em sítios inacessíveis. Ficamos sempre fascinados por ver estas bonitas aves a aplanar, no entanto começam a ser um problema. Com as mudanças climatéricas, muitas cegonhas deixaram de emigrar, sendo uma ave no topo na cadeia alimentar dentro da categoria das aves, não se sabe ao certo o impacto sobre a flora e fauna local.
Antes de chegarmos à Zamujeira do Mar passamos por algumas praias quase inacessíveis, sem dúvida um bom local para fazer praia de Verão, pois são muito pouco frequentadas. Se fossem de fácil acesso já teriam seguramente construído um condómino ou algum resort. Junto a essas praias existem alguns passadiços pedonais com torres para observação das aves, como os falcões regrinos, gralhas de bico vermelho, francelhos e a quase extinta águia pesqueira.
A meio da tarde chegamos à Zamujeira, no entanto o dia ainda não tinha acabado para mim e para o Tó, tínhamos de ir buscar os carros que estavam no Cabo Sardão e coloca-los em Odeceixe, para podermos regressar no dia seguinte. Nada melhor para fazer o transbordo do que a bicla. É prático, ecológico e dá para esticar as pernas. Esticamo-las tanto que só chegamos à noite à Zambujeira.

Começamos a caminhar pelas nove, com uma brisa fresca e com a ameaça de chuva. O trilho continua sempre junto à falésia. As formações rochosas mudam um pouco, são mais arenosas e em algumas partes ameaçam desabar a qualquer momento, perante o mar que fustiga incessantemente sem dar tréguas, no entanto as falésias continuam a ser muito bonitas. A vegetação é a mesma, onde predomina a praga dos chorões que estão a dizimar as espécies autóctones.
Desta vez, conseguimos subir a falésia da praia do Carvalhal. Das outras vezes que tentei, ou era a chuva que tornava o piso demasiado derrapante ou era a maré alta que não permitia alcançarmos o trilho.
O piso torna-se um pouco arenoso e com zonas onde os chorões me fazem lembrar mais um campo de relvado tal não é a extensão que ocupam. Andar em cima deles não é muito fácil, torna-se um pouco cansativo.
Para transpormos a falésia junto à praia da Amália, tivemos de “reptilalar” um pouco, por causa do trilho estar um pouco cerrado devido ao mato. Nas anteriores travessias, passávamos mais na parte de cima junto a uma casa, mas devido aos dentes ameaçadores de um Pit-Bull e do seu dono menos simpático, alteramos o percurso, que por sinal passou a ser bem mais bonito.
Rapidamente chegamos às Azenhas do Mar. O pequeno porto é bem mais limpo que o Porto das Barcas. Têm estado a requalificar as ruas da pequena aldeia, inclusive construíram pequenas casotas para os pescadores guardarem o seu material. Pode parecer tudo muito bonito, mas estas bonitas casotas revelam o ridículo ao qual chegou o nosso país. Ao lado dos passadiços de madeira e das casotas estão barracas com esgotos a céu aberto, onde habitam pessoas em condições muito precárias. Por vezes, até parece que os passadiços ou passeios pedonais foram feitos para observar o espécime homem de uma forma mais primitiva. Seguramente que as pessoas que ali se instalaram fizeram-no de uma forma ilegal, mas isso não é pretexto para chegar ao ponto degradante que chegou neste momento.
A saída das Azenhas é feita por uma íngreme descida, que faz acelerar os corações mais mal preparados para estas andanças. Entretanto uma nuvem ameaçadora aproxima-se rapidamente trazendo chuva, vento e trovoada. Felizmente o aguaceiro passou rápido e tão depressa metemos os impermeáveis, como os tiramos.
Passamos por um velho pescador resignado com a pouca sorte de ter apanhado alguns sargos e de os ter atirado novamente para água. Acontece que algumas mentes brilhantes que estão sentadas no nosso parlamento ou no parlamento europeu, de vez em quando lembram-se de fazer algumas leis para proteger espécies que só as conhecem no prato, que por sinal comem-nas nesta mesma zona, onde fizeram uma lei para proibir a sua pesca.
Como se costuma dizer: Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Há que ter bom senso, pois para estas pessoas, a pesca à linha é por vezes a única forma de terem algum sustento para as suas famílias. Seguramente que não são este tipos de pescadores que vão dizimar os peixes, mas sim os arrastões, que como o próprio nome diz, arrastam e apanham tudo o que encontram.
Finalmente chegamos à praia de Odeceixe. Mas antes de lá chegarmos tivemos de caminhar um pouco pelos campos agrícolas para encontrar o caminho que nos levou até à praia.
Passamos o rio com água pelos tornozelos. Meia hora mais tarde, a lua exerceu o seu magnetismo sobre o imenso oceano empurrando a água pelo rio acima. Atravessamos mesmo na hora ideal, mais um pouco e teria de ser a nado, que já me sucedeu uma vez.
Finda a caminhada descansamos na praia e comemos os deliciosos pitéus preparados pela Caminhos.
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Dentro de dias, continua a travessia pela Costa Vicentina.
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

ENTRUDANÇAS

Desta vez para descrever o meu fim de semana
Uma crónica não vou escrever
Tenho muito pena
Mas umas rimas vou tentar fazer.


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É a primeira vez que escrevo nesta configuração.
Espero que, naturalmente as rimas se soltem
Espero não arranjar grande confusão.

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Amar, viajar
Viajar e ser amado
Chegar e deslumbrar-me com um sorriso de encantar
Que a dureza da vida não o tornou apagado.

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Olhar, colar, dançar
Até que as pernas me doam de tanto rodopiar
Com os músculos quase a estoirar
Continuo, continuo, até me extasiar.

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Despertar embalado com os pássaros a chilrear
Cegar com os deliciosos raios de sol
Pedalar, pedalar, cantar, gritar
Embriagar-me de felicidade e voar como um rouxinol.

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Escutar, sentir, sonhar
Uma voz de arrepiar
Que, no fim do dia, nos fez embalar.

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Corpos colados, corpos enrolados
Que ficam excitados
De tanto roçar, ficam molhados.

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Caminhar, deambular, voar
Que só o verde Alentejo me faz sentir
Beber a brisa quente e um sol de queimar
Vou ter muito pena, quando desta terra me despedir.

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Comidas saborosas
Feitas com carinho e amor
Delicio-me com degustações deliciosas
E como-as com todo o fervor.











Às minhas duas queridas amigas
Um sincero obrigado
Porque me são queridas
Sinto-me verdadeiramente afortunado.
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

PAIS NATAL EM "CRISE"

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Como é habitual, todos os anos, eu e mais uns tantos, vestimo-nos mais ou menos à Pai Natal e vamos “ciclar” algumas avenidas e ruas de Lisboa para ver a iluminação natalícia.

Sai do trabalho com intenção de ir para o ponto de encontro em Algés. Como me faltava comprar uma prenda cai na grande asneira de ir a um centro comercial. Só pensava, burro, burro, burro, já sabia, porque é que eu vim!
Crise? Somente para os crónicos pobres. Entro e saio cheio de “coceira” no corpo, estava tudo infernal. Para sair do shopping demoro meia-hora. A causa, um segurança a fazer de policia sinaleiro com uma daquelas placas para peões com vermelho de um lado e verde do outro. Só que ali não haviam peões, somente carros e ainda por cima numa via publica . Será que é legal?
Após uma hora chego ao ponto de encontro. Alguns vieram de bicicleta para fugir ao transito.
Não eramos muitos, mas os do costume estavam lá. Foi bom voltar a estar com pessoal que já não vejo há um ano exactamente num passeio de Pais Natal.
Como é costume, fomos beira rio até Praça do Comercio para de seguida treparmos até ao castelo e depois descermos desenfreadamente por Alfama.
Quando passamos em frente à Praça do Comercio, ouvi uma voz feminina a dizer timidamente “Pimpão”, olhei, para meu espanto e minha alegria era a Deolinda. A Deolinda foi a senhora que me acolheu quando estive em Cabo Verde. Fiquei feliz por voltar a ver esta querida cabo verdiana e saber que a família dela está bem, que saudades!!!!
Subimos a Rua Augusta, que estava totalmente deserta, e como é habitual fomos comer uma bifana ao Rossio. Que saudades de comer uma bifana com aquele molho retardado de vinte e quatro horas com aquele sabor a “requentado”. De seguida a habitual ginginha em copos “ecológicos” que não conhecem água nem detergente há dias. Bendita ASAE, que compreende as preocupações ecológicas destes estabelecimentos na poupança de águas e detergentes e óleos.
Subimos a Avenida e de seguida o Parque Eduardo VII, onde está árvore de Natal. Como eramos os únicos a usar a farda da Coca-Cola e a dizer hohoho, naturalmente fomos a principal atracção para miúdos e graúdos, até uns estrangeiros queriam pagar-nos para tirar fotos. Sem duvida foi um momento muito agradável, estávamos todos felizes.
Após a passagem pela árvore de Natal, seguimos para as Amoreiras e descemos para o Rato. Na descida, um peão distraído, atravessa a estrada. Como estava o olhar para o telemóvel não se apercebeu que vinha um ciclista a descer a todo o gás, berro, mas o maldito telemóvel tinha adormecido os sentidos do homem. Como não me podia desviar devido aos carris do eléctrico, acciono os travões com toda a potência. O homem subitamente apercebe-se da situação e desvia-se o suficiente para eu passar. Afinal era um estudante com uma capa e quando se desvia eu mais parecia um touro a investir na capa do toureiro.
Nunca fiz o Largo do Rato tão depressa. Seguimos para o Bairro Alto e de seguida para o Largo do Camões. Está tudo deserto. É um contraste abismal entre os centros comercias e as ditas ruas mais movimentadas de Lisboa. Muito poderia escrever sobre isto, mas como estamos no Natal, estou a tentar não ser muito corrosivo e manter a linha natalícia.
Para minha felicidade e para desespero de outros a descida da Bica, que culmina numa escadaria, é o delírio total.
Atravessamos a 24 Julho pela ponte pedonal e regressamos a Algés. Apesar da hora adiantada, as docas estavam um deserto, somente os porteiros e alguns turistas marcavam presença.
Há já alguns anos que faço este passeio e dá-me um imenso gozo deambular pelas ruas da maravilhosa Lisboa de bicicleta.

Desejo a todos um Feliz Natal e para 2009, o meu maior desejo, é que deixem os carros em casa e vão passear a pé ou de bicicleta em vez de irem para os Centros Comercias. A vossa saúde, a carteira e o comercio tradicional, agradecem.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

TROIA-SAGRES

(clicar nas fotos para ampliar) (o menu do blog encontra-se no fim)
Foi em 1996 que fiz a primeira travessia em BTT e foi de Tróia até Lagos. Na altura foi organizada pelo Fernando e
pelo o João. Curioso que depois tornamo-nos amigos e desde então já “palmilhamos” umas valentes serras com as nossas biclas.

Normalmente,os dias que me custam a sair da cama são para ir trabalhar, se for para fazer outra coisa que não trabalhar, fico logo com uma espécie de formigueiro para sair da cama, mas desta vez era diferente. São 4.30, ouvia a trovoada e o vento a projectar a chuva contra a janela.
Após levantar-me com muito custo, segui para Loures para dar boleia ao Jorge e de seguida para Telheiras para apanhar mais pessoal. Tínhamos de estar em Setúbal pelas 7.30 para apanhar o ferry.
As oito em ponto estavam todos os que tinham confirmado fazer esta travessia, ninguém tinha-se “cortado”.
Ao montar a bicicleta vejo, para meu desespero, que me tinha esquecido em Telheiras do selim dentro do carro. Felizmente a Caminhos da Natureza tem uma bicicleta suplente, o que deu para retirar o selim e montar na minha bicla.
Da primeira que fiz uma travessia fi-la como cliente, agora ia fazê-la como guia pela www.caminhosdanatureza.com .
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Finalmente a rolar. Como que por magia parou de chover e apareceram alguns tímidos raios de sol. Os primeiros quilómetros são feitos inevitavelmente por asfalto pois não existem caminhos nesta península, quase toda ela tem terreno de areia. Após sairmos da “menos-horrivel-Troia” (menos porque fizeram alguns melhoramentos a nível urbanístico). A paisagem é agradável com o estuário do Sado no lado esquerdo e o a
Atlântico no lado direito com a Arrábida em pano de fundo com nuvens muito negras a ameaçar chuva a qualquer momento.
Após os kms iniciais, chegamos à Comporta. A partir de aqui seriam cerca de 11kms pelo meio dos arrozais. Apesar de estar tudo muito encharcado, o piso não estava muito mole o que permitia rolar com alguma velocidade. O caminho é ao longo dos canais, o que permite observar as muitas aves que descansam e passam aqui o Inverno após a sua longa migração. Apesar de tudo não pareciam muito incomodadas com a nossa presença. Devem estar muito habituadas à presença humana pois estão em permanente contacto com os agricultores.
Quando chegamos a Carvalhal e ao passarmos por um café, chegou a hora dos “cafeína-dependentes”.
Depois de Carvalhal, deixamos os arrozais. O piso torna-se mais mole, o que dificulta um pouco a progressão. Apesar de ter chovido os caminhos de areia não ficaram mais duros, antes pelo contrário.
As nuvens muito negras que nos rodeavam e que até agora nos tinha poupado, uniram-se e projectaram sem piedade granizo, vento e depois chuva. O que nos valia é que o vento vinha de trás e até ajudava. Os caminhos tornaram-se num lamaçal, o que provoca um desgaste tremendo na transmissão da bicicleta e também na nossa massa muscular.
Este desgaste reflectiu-se numa corrente partida e numa suspensão traseira que deixou de funcionar.
Aos poucos e poucos íamos entrando na Serra de Grandola. A planície tinha ficado para trás e dava lugar ao chamado “rompe-pernas”, ou seja, um sobe e desce constante. Por várias vezes tivemos de fazer alguns trilhos pelas ribeiras que ainda têm pouca água. Este tipo de relevo fez a delícia de todos, apesar de haver alguma lama e continuar a chover a vegetação é lindíssima com bosques de carvalhos, azinheiras e principalmente sobreiros.
No abastecimento repomos as calorias necessárias, pois muitos queixavam-se do frio. O impermeável da Montane, manteve o meu corpo bem sequinho, somente as pernas estavam molhadas, mas com pedalar elas facilmente aqueceriam.
O “frizadinho” do relevo continuou, mas não muito acentuado. A cerca de 8 km de Santiago do Cacem, havia duas opções, a primeira por estrada e a segunda continuava pelos caminhos. Uma parte do grupo optou pela primeira devido ao cansaço. O outro optou por aquela que viria a ser o troço mais demolidor. Descidas alucinantes e rampas de morder o volante fizeram o deleite de todos os que quiseram experimentar esta vertente mais difícil.
Esta etapa reflectiu-se em 85 kms, onde a principal dificuldade apesar da chuva e do frio, foi o piso um pouco mole o que reflectiu num desgaste considerável nos nossos corpos.
Após a lavagem das biclas e de um banho de uma hora para tirar toda a lama, jantamos uma bela massada de porco preto, o único senão foi o facto de o restaurante ser para fumadores e isso era um facto que desconhecíamos a quando da reserva. Apesar de tudo tinham uma pequena sala de não fumadores, mas não significou que não tivéssemos de levar algumas “baforadas” de fumo.

Apesar da chuva que caiu de noite, o dia acorda radioso. Saímos de Santiago e fomos deixando para trás o imponente castelo dos Mouros onde sobressai a igreja matriz. Não tardou muito para a entrarmos na serra para mais um sobe e desce. O sol incidia sobre a vegetação molhada, reflectindo cores intensas e também aromas agradáveis proveniente da esteva. O piso continuava um pouco mole. Ao passarmos por Sonega os “cafeína-dependentes” voltam a barafustar.
Já tínhamos saído da Serra de Grandola e estávamos a entrar na Serra do Cercal. Inicialmente predomina a praga do eucalipto, mas depois de uma grande descida entramos num vale onde predomina árvores de folha caduca, onde até havia castanheiros, sem dúvida um cenário que não é muito normal ver no Alentejo. Nesta zona existem muitos portões em forma de rede, o que nos obrigava sistematicamente a parar para passá-los.
Antes de fazermos a subida final para o alto da Senhora das Neves, um desviador traseiro XTR desfez-se em mil bocados. Apesar te ter tentado fazer uma “ligação directa”, esta não resultou. Felizmente tínhamos a carrinha de assistência.
As vistas no alto da serra são fabulosas, desde a Serra da Arrábida até ao Cabo Sardão. Ao longe, nuvens começam a aproximar-se perigosamente.
Até ao Cabo Sardão é sempre a rolar num misto de estradões e asfalto. O pessoal excitasse um pouco dando origem às habituais escaramuças.
Rapidamente chegamos ao Cabo Sardão, os andamentos mais pesados reflectiram-se em muita fome e quando chegamos à assistência, avidamente comemos praticamente tudo o que havia para comer.
Do Cabo Sardão até ao Porto das Barcas o caminho é sempre junto à espectacular falésia. O caminho é muito rápido e ajudado pelo forte vento que entretanto se levantou fazia-nos “voar”. “Voamos” tanto que uma rajada mais forte fez colidir dois betetistas provocando uma queda, mas felizmente sem consequências.
Antes de chegarmos à Zambujeira do Mar começa a chover, mas não seria por muito tempo.
Depois da Zambujeira, até à praia Praia do Carvalhal é feito por um estradão algo irregular, o que fez desesperar os meu “traseiro”. Nestas alturas sonho sempre em ter uma bicicleta de suspensão total.
A partir de Brejão entramos na fase final, ou seja os últimos 10kms seriam percorridos em trilho sempre junto aos canais de rega.
Quando o terreno está seco, pode-se fazer quase sempre em “talega”(pedaleiro grande), mas com a lama e erva molhada fazia com que o piso ficasse “manteiga”, ao mínimo deslize iríamos parar ao canal. Mas pensando melhor até que não seria muito mau, apesar do frio, um banho sempre tirava a imensa lama que tinha.
Faltava cerca dez minutos para o por-do-sol e chegamos ao fim do canal e avistamos Odeceixe. Só faltava descer a íngreme descida, que muitos não se atreveram a fazê-la montado.
O dia tinha rendido cerca de 100kms e mais uma vez o que mais dificultou foi o “terreno pesado”. Para repor as energias degustamos uma bela espetada de tamboril com batata doce, um verdadeiro pitéu.

Apesar de todos se queixarem do cansaço acumulado, na primeira subida ao sair de Odeceixe ninguém se poupou e começaram a subir desenfreadamente para desespero das minhas pernas.
A senda dos canais continuava seriam cerca de 15km até ao Rogil. Apesar de estar Sol o piso estava muito empapado saltando lama por tudo o que era sítio.
Finalmente tinhamos-nos livrado dos canais. Este percurso é muito bonito, mas com esta lama torna-se num verdadeiro pesadelo. Do Rogil até Aljezur é sempre a dar “gás” inicialmente por um estradão plano, seguido de uma descida muito rápida e depois um asfalto secundário.
A saída de Aljezur é feita por uma forte subida até ao castelo, continuando a subida depois por asfalto. O percurso aqui, teve de ser alterado devido à muita lama existente no caminho junto ao rio.
Após o alcatrão entramos num caminho sempre a descer até Praia do Penedo. As vistas aqui são fabulosas fazendo-me lembrar as Cliffs of Moher na Irlanda. Para mim este local é sem dúvida um dos mais bonitos de Portugal.
Esta beleza desvaneceu-se com uma forte subida em que o piso lamacento contribuiu para que esta fosse talvez a subida mais difícil da travessia.
Passada esta dificuldade começa a chover copiosamente. O holandês Marck, já rogava pragas até ele que está habituado à chuva, estava a barafustar. Não chove em Portugal há mais de uma mês e ele acertou mesmo na “mosca”, veio e começou a chover. As minhas alfaces e couves agradecem.
Da Bordeira até à Praia do Amado choveu torrencialmente, a lama e água que os pneus projectavam quase que me cegavam. Por milagre, quando chegamos à Praia do Amado para reabastecermos parou de chover e fez-se sol.
Enquanto comíamos, colocamo-nos ao sol que nem uns lagartos para tentar secar e aquecer um pouco. Após termos recarregado as baterias, apanhamos logo de seguida um verdadeiro “petisco” de barro vermelho que se colava a tudo o que era sítio, tornando a progressão muito difícil.
Passada esta zona hiper-lamacenta, ciclamos num trilho mesmo junto à falésia, muito bonito mas que obrigava a redobrada atenção. Neste mesmo trilho uma pedra mais afiada corta-me o pneu. A “nenha”, não é suficiente para tapar o buraco do pneu tubless, a solução é colocar uma camera de ar. O resto do grupo continuou.
Como conheço bem a zona, trepo uma falésia com a bicicleta às costas para atalhar. Pedalo cerca de 500mt e subitamente, sem que houvesse razão para tal, o carreto pequeno “chupa” a corrente partindo-a em dois.
Ultimamente tem sido uma praga quanto às correntes partidas. Quando fazia competição só por uma vez parti uma , agora cada vez que saio parto quase sempre qualquer coisa.
Definitivamente tenho de ir à bruxa.
A travessia acabou para mim.
Entretanto aparece o resto do grupo e continuam o passeio pela zona mais bonita de toda a travessia, passando pelas praias da Murração, Praia da Barriga e Praia do Castelejo, sempre num sobe e desce constante junto às enormes falésias até Sagres.
A mim, restava-me andar a pé cerca de 4km até chegar à estrada onde a carrinha me apanharia.
Já por muitas vezes fiz a Costa Vicentina a pé ou de bicicleta e por muito que viaje continua a ser um dos locais mais bonitos que conheço. Não é necessário fazer grandes viagens para vermos locais belíssimos, eles por vezes estão aqui mesmo à “porta”

terça-feira, 18 de novembro de 2008

"O REINO FUNGI"


(clicar nas fotos para ampliar)(o menu do blog encontra-se no fim)

Já faz muitos anos que vou para a Serra da Estrela andar a pé ou de bicicleta.Mesmo assim, cada vez que lá vou, descubro ou dão-me a conhecer novos recantos que não me deixam de surpreender pela beleza e pelo estado selvagem onde felizmente os encontramos.
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Desta vez, a convite do meu amigo AG. Inseri-me num passeio pedestre dos
www.caminhosdanatureza.com para ir à descoberta do reino fungi, mas desta vez não ia como guia, esta parte competiria ao AG e ao “eco-fungos” Rui.
A instalação dos painéis fotovoltaicos e a viagem recente à Irlanda e Equador, fizeram um buraco no meu bolso do tamanho da cratera do vulcão Cotopaxi. Como tal, o facto da www.casadaspenhasdouradas.pt estar habitualmente esgotada, foi de certa forma um alivio. A opção escolhida caiu inevitavelmente para o Covão da Ponte onde se pode acampar num local junto ao Mondeguinho. Apesar de um hotel como o da Casa das Penhas Douradas ter todo o conforto que se possa imaginar, acampar junto a um rio, adormecer com o barulho da água e acordar com o chilrear dos pássaros são coisas ao qual não troco por nada.
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A noite como previa foi bastante fria, mas não imaginava que iriam estar - 2Cº. Os dedos quase que petrificavam com o frio ao comer o pequeno-almoço, mas pouco me incomodavam perante a beleza do nascer do dia naquele local fabuloso. O inverno que teima em não chegar faz com que as árvores tenham muita folhagem com cores fabulosas, que vão caindo aos poucos com a suave brisa da manhã, em contraste com a forte geada que tinha transformado a erva num vasto manto branco.
Após ter “descongelado” o carro, dirigi-me para as Penhas Douradas para me juntar ao resto do grupo.
Foi bom reencontrar algumas pessoas que já não via há bastante tempo.
Após termos saído da casa das penhas e deixarmos a estrada, entramos no vale do Mondeguinho onde o Rui se embrenhou logo na floresta à descoberta dos cogumelos.
Os cogumelos estão classificados como um reino denominado Fungi. Calcula-se que existam na terra cerca de 1.5 milhões de espécies, mas confirmados existem cerca de 70 mil. Os fungos contribuem de uma forma muito importante para a preservação da diversidade biológica do nosso planeta e estão presentes em mil e uma formas no nosso quotidiano. Algumas espécies são microscópicas e muitas delas estão presentes no nosso dia-a-dia, desde a fermentação do pão até ao fungo mais conhecido e de extrema importância, a penicilina descoberta por Fleming.
Rui é um fanático da micologia. Se esta palavra já é um pouco complicada para mim, muito mais foram os nomes para descrever os nomes e tipos de cogumelos.
Só mesmo um verdadeiro micologista como o Rui soletrava facilmente nomes como Amanita Phalloides, Agaricus Blazei, Psiloccybe Cubensis, Hygrophoropsis, Heterobasidiomicetas e muitos mais “palavrões”, que para a minha ignorância quase que entravam por uma orelha e saiam por outra, sem que o meu pobre cérebro tivesse capacidade de as reter.
As cores outonais estavam bem presentes e no bosque por onde andávamos, estava simplesmente delicioso com todas aquelas tonalidades, só faltava saltar do meio dos cogumelos um duende ou melhor ainda, um estrunfe.
Enquanto caminhavámos pelo meio do bosque íamos recolhendo alguns cogumelos e tentávamos decifrar as suas características tendo como objectivo final saber se eram comestíveis ou não. Fiquei surpreendido pela diversidade de cogumelos e das suas especificações complexas que ao pouco e pouco o Rui nos ia dando a conhecer.
Ao almoço esperava-nos um verdadeiro repasto junto a uns penedos enormes onde uma pequena cascata caía num lago cristalino cheio de folhas de tom alaranjado.
Conheço quase toda a Serra da Estrela, mas este local é sem dúvida um dos mais bonitos e está num local que pouca gente conhece.
De volta à caminhada de barriga muito cheia, o grupo dividiu-se em dois. Um, continou a senda dos cogumelos e outro “alargou” a caminhada para quem quisesse caminhar mais depressa. Como me apetecia esticar um pouco mais as pernas optei por dar a volta maior.
Depois de sairmos do vale do Mondeguinho atingimos o caminho que vem da Santinha. Aqui as vistas são fabulosas, conseguímos deslumbrar bem ao longe a Serra de Gredos e mais perto o Marão, isto só é possível devido ao dia estar muito claro.
Após termos contemplado as vistas seguimos pelo caminho e logo passamos a estrada para fazer a subida final que nos ia levar às Penhas Douradas. Durante a subida pelo maravilhoso trilho e já na parte final somos contemplados por um pôr-do-sol fantástico. Chegamos à casa das Penhas Douradas era já de noite.
Antes do jantar, as pessoas tiveram o seu momento de relaxe na piscina interior e todos os mimos a que tinham direito, claro que eu, aqui, esqueci-me o quanto é bom acampar e por momentos roguei pragas por não poder estar aqui hospedado.
Antes do maravilhoso jantar servido pelo Paulo, ouve mais uma palestra sobre os cogumelos e o quanto devermos ter cuidado, pois a ingestão de cogumelos venenosos, pois podem ser fatais, embora há alguns que podem provocar alucinações.
O jantar teria inevitavelmente cogumelos apanhados naquele dia, o que deixou muita gente apreensiva após terem ouvido a palestra sobre cogumelos venenosos, claro que ali a qualidade estava mais que assegurada, com um especialista como o Rui.
Quando sai do “quentinho” do hotel para ir para a tenda no Covão, olhei para o termómetro e voltei a rogar pragas.
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Desta vez estão –3Cº e não estou com alucinações. O meu saco cama para – 20Cº deu-me uma maravilhosa noite de sono. Ter bom material nestas circunstâncias torna-se fundamental e até me fez esquecer a maravilhosa Casa das Penhas Douradas, para além do mais o dia ia estar magnífico.
Fiquei de me encontrar com o resto do grupo bem perto do Covão, na Cruz das Jogadas.
O grupo ia-se dividir em dois, um para continuar a observação dos cogumelos e outro ia simplesmente caminhar “esticando” a volta.
Inicialmente descemos um pequeno vale que ia ter ao Covão da Ponte. Neste vale ainda o sol ainda não tinha feito a sua aparição. Os pequenos terrenos agrícolas estavam brancos de geada. Por baixo de algumas árvores ainda com algumas folhas havia um misto de branco da geada com o rosa e amarelo das folhas que iam caindo. No meio destas cores todas, os sons dos badalos dos chocalhos das cabras que iam para o pasto controladas pelos enormes rafeiros Serra da Estrela.
A partir do Covão, uma grande rampa que nos levaria até ao Corredor dos Mouros. Inicialmente bastante inclinada e depois mais suave, foi um desnível subida com cerca de 400 metros. Com a aparição do sol a temperatura subiu consideravelmente levando-nos a tirar quase toda a roupa. Para esta altura do ano a temperatura está demasiado alta.
A vista no alto do Corredor dos Mouros é simplesmente fabulosa, tudo o que a vista podia alcançar, alcançava-o porque não havia uma única nuvem que o impedisse, somente restava algum nevoeiro na zona do Sabugal e Penamacor. Este cenário fez-me recordar um pouco as vistas que tive ao nascer do sol quando escalava o Iliniza, a diferença é que lá estava a cerca de 5000 mt e aqui estou a uns meros 1400 mt de altitude e também não tinha picos com cerca de 6000 mt a nascer como cogumelos no meio das nuvens.
Após termos contemplado aquele cenário começamos a descer suavemente para uma capela perdida no meio de castanheiros centenários e depois para o posto de vigia de S. Lourenço. Deste local têm-se as melhores vistas sobre o vale glaciar do Zezere, simplesmente fantástico. Após termos regalado as vistas com aquelas paisagens embrenhamo-nos no meio da floresta de folha caduca.

É fabuloso caminhar no meio da floresta com as mil e uma cores do Outono. Os nossos pés desaparecem no meio da folhagem, o sol penetrava pelo meio das folhas conseguindo que alguns raios desta forma atingissem o solo, acentuando mais as cores do Outono.

Infelizmente tenho de regressar, despedi-me do resto do pessoal que estava comigo, o homem dos cogumelos ainda continuava no meio da floresta. Se para mim isto é um local fabuloso, imagino para ele!

Tenho muita pena que a verdadeira Serra da Estrela seja desfrutada por pouca gente. A grande maioria continua a fazer um tipo de turismo que sinceramente não é compatível com a realidade serrana, ou seja, o típico turista que leva o carro até à Torre.
Seria bom que as autoridades responsáveis promovessem mais o turismo relacionado com a natureza. Desta forma as pessoas iriam conhecer, compreender e respeitar melhor a realidade serrana, ajudando a preservação da
flora, fauna, costumes e tradições.








quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Éire-Ireland-Irlanda

(clicar nas fotos para ampliar) (o menu do blog encontra-se no fim)
Quando o Aristides e a Paula me convidaram para ir à Irlanda integrado num grupo do Wall Street Institude, não pensei duas vezes e aceitei.
Ao contrário do que tem sido as últimas férias em que vou quase sempre por minha conta e risco, desta vez foi uma viagem organizada, onde a Paula, incansável, organizou tudo meticulosamente não deixando nada ao acaso.

Depois de uma noite com poucas horas de sono, o autocarro levou-nos até Cliffs of Mother.
Antes de lá chegarmos fizemos uma pequena visita ao Bunratty Castle (irlandês: Caiariam Bhun Raithe) e também à pequena aldeia Bunratty.
Tal como em muitas partes da Irlanda, os primeiros a viverem nestas terras foram os Vikings, mas só em 1270 foi construído a primeira estrutura militar. Entre conflitos, destruições e reconstruções, apenas em 1425 o castelo adquire as formas que conhecemos até hoje. O castelo tem a forma de uma torre onde se destaca a parte frontal com a imitação de uma gigantesca porta. No meio aparece a pequena porta de entrada e mais algumas janelas.
Depois das fotos da praxe fomos sem perder tempo para as Cliffs of Mother. Durante esta viagem, todas as paisagens por onde passámps eram lindíssimas com bonitas casas, campos muito verdes com as ovelhas e vacas a pastar tranquilamente. Ao passarmos pela vila de Kilrush, deparamo-nos com uma maravilhosa vista sobre o estuário do rio Shannon (Sionainn em irlandês).
Finalmente as Cliffs of Moher. Aqui a terra acaba abruptamente e precipita-se sobre o mar numas falésias muito bonitas. Podemos percorrê-las através de um bonito trilho revestido e protegido lateralmente com grandes lajes de pedra lembrando a nossa pedra ardósia.
A semelhança com o Cabo da Roca e a fabulosa Costa Vicentina torna-se inevitável. Esta parecença faz com que haja alguns comentários típicos “para quê vir aqui se temos igual em Portugal”. Quem diz isto muito provavelmente nem conhece bem o Cabo da Roca ou a Costa Vicentina, mas enfim! Cada rocha é uma rocha, cada árvore é uma árvore, tudo é diferente, tudo tem uma beleza impar, há que apreciar cada rocha, cada nuvem, cada planta. É o que eu faço, sentindo uma ligeira brisa que vem do Atlântico deixo-me levar por aquela beleza divagando na minha mente ao som da música Celta.
Junto a estas falésias existe um pequeno museu dedicado à geologia, à fauna e à flora local. Também existe um restaurante panorâmico onde comi uma batata enorme recheada de chili picante que viria, mais tarde, a ter consequências nefastas mais tarde.
Aqui sim, torna-se absolutamente necessário fazer uma comparação. Este museu e restaurante encontram-se debaixo do solo não chocando com a paisagem. De um local onde existem apenas verdes prados, falésias e mar, fizeram um ponto turístico, agradável bonito e equilibrado com o meio ambiente.
No regresso, e de volta à estrada. No regresso paramos na cidade de Limerick (Luimneach em irlandês). Esta bonita cidade fica junto ao rio Shannon e destaca-se sobretudo pelo belo King John´s Castle e a St Mary's Cathedral. Apesar de não termos muito tempo deu para dar um belo passeio pela cidade onde tive a oportunidade de entender o porquê dos irlandeses serem o povo mais católico da Europa. Apesar de ser um Domingo, de tarde, há celebrações e as igrejas estão apinhadas de gente.
Finalmente em Dublin. O motorista de muito poucas falas somente fazia um pequeno aceno com os dedos quando se cruzava com outros motoristas conhecidos. A pontualidade dele era impressionante, em contraste com a dos portugueses.
Antes do jantar num Italiano junto ao hotel fiquei surpreendido quando num supermercado ao comprar bananas, vi que havia
um espaço com produtos polacos. A Irlanda nos últimos anos tem sido “invadida” por polacos devido ao facto de a Irlanda ter o quinto PIB per capita mais elevado do mundo e isso inevitavelmente reflecte-se nos bons salários, na qualidade de vida e obviamente ser atractiva para a imigração.
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Como de costume às oito em ponto já o autocarro está à nossa espera, com motorista a fumar o seu habitual cigarro.
Desta feita o autocarro ia levar-nos para a cidade de Cork (Corcaigh em irlandês). Durante a viagem paramos numa pequena aldeia. As aldeias aqui são muito pitorescas, as casas estão muito bem conservadas e todas elas são muito coloridas. O comércio local prevalece, oferecendo um ar bastante acolhedor onde quer que nós entremos, seja uma mercearia ou um inevitável Pub.
Cork é a segunda maior cidade da República da Irlanda, situa-se no sul sendo atravessada pelo River Lee que desagua na baia Cork Harbour que por sua vez se liga ao Sea of Celtic. Toda esta zona tem uma forte actividade portuária pois Cork Harbour tem o segundo maior porto navegável do mundo depois de Sydney.
Como companheiros para visitar Cork, tinha a simpática Fátima, o sempre bem-disposto Luís e a hiper-activa Matilde. Esta “pequena-grande-mulher” fazia os foguetes, atirava-os, apanhava as canas e ainda as reciclava.
Cork não tem muito para ver a não ser a bonita St Finbarre's Cathedral e as movimentadas ruas onde Luís e Matilde devoravam todas as montras e lojas a uma velocidade estonteante, o que para mim se tornou mais cansativo do que escalar o Cotopaxi ou fazer cem quilómetros de bicicleta.
Ao almoço eu e Fátima decidimos metermo-nos num típico bar onde nos deliciamos com uma maravilhosa sopa enquanto Luís e Matilde continuavam a “maratona” pela cidade.
Pouco depois do almoço estamos de novo no autocarro, mas desta vez para fazer uma pequena viagem sempre junto às margens de Cork Harbour onde se vislumbravam as belas casas e palácios, fazendo-me lembrar um pouco o Laco di Como.
Rapidamente chegamos a Cobh (An Cóbh em irlandês) ou antiga Queenstown.
Desta pequena vila partiram entre 1848 e 1950 cerca de 2.5 milhões dos 6 milhões de habitantes que emigraram nesta altura essencialmente para os EUA. É quase a totalidade das pessoas residentes na Republica da Irlanda actualmente, cerca de 4 milhões. Esta emigração está representada por uma bela estátua de bronze em homenagem a Annie Moore e seus irmãos que foram os primeiroa irlandeses serem admitidas nos EUA. Este massivo êxodo deve-se à extrema pobreza que se vivia naquela época.
Embarcavam praticamente só com a roupa que tinham e eram acondicionados em navios em condições desumanas, fazendo com que muitos não aguentassem aquelas viagens intermináveis em busca do sonho americano.
Para além dos EUA, de Queenstown saíram também
navios para todo mundo incluindo a Austrália que naquele tempo era uma antiga colónia penal.
No bonito museu junto ao porto, encontramos recriados todos estes factos numa recreação fiel daqueles tempos. Também no museu se encontra um espólio da antiga frota de navios que por aqui passaram, entre eles se destacam o mais famoso de todos: o Titanic e o menos conhecido Lusitanea que foi atingido por um torpedo de um submarino Alemão em 1915 ceifando a vida a 1198 passageiros das 1959 pessoas, que iam a bordo.
Bem perto do museu está o cais de embarque, onde saíram num ferry os últimos 123 passageiros para embarcarem no Titanic, que tinha saído do porto de Southamptom e que fazia a última escala aqui em Cobh (antiga Queenstown) no dia 11 Abril de 1912. Quanto ao resto da história, toda a gente já sabe.
Nesta bonita vila para além das lindas casas e apartamentos com as suas mil e uma cores, sobressai por detrás a majestosa e gigantesca St. Colman Cathedral.
Sem dúvida que esta bonita vila de Cobh, “encheu” o olho a toda a gente, para além do mais esteve um sol radioso e uma temperatura amena que é coisa rara principalmente em Novembro. Para completar, assistimos a um pôr-do-sol belíssimo sobre a baia de Cork Harbour.
Durante a viagem de regresso interrogava-me como é que um país que até há pouco tempo era um dos mais pobres da Europa é agora um dos mais ricos do Mundo. A resposta até é simples: qualificação da mão-de-obra, redução dos impostos para atrair mais investimento estrangeiro, redução da percentagem que o investimento público tem no PIB e o mais importante de tudo, aposta na educação. Pelo contrário em Portugal vive-se do betão e alcatrão. Claro que podia dar mais exemplos mas acho que o meu blog não teria capacidade nem tamanho para suportar os meus devaneios e sátiras sobre a política portuguesa.
Ao jantar, quase todos optámos por um restaurante “americanizado” bem ao estilo dos anos 60 com bancos a imitar os dos Cadillac pequenas Jukebox afixadas nas paredes. Só faltava entrar no restaurante o Elvis Presley, the king!
Claro que a comida era aquela que se esperava, toneladas de carne sebosa e mal temperada e regada com molhos que me dava vontade de vomitar só de olhar. Um exagero de comida, até para os típicos portugueses “enfarta brutos”. Claro que depois tivemos de caminhar uns quarteirões em redor do hotel para digerir aquilo tudo.
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Como era habitual o autocarro estava às oito da manhã em frente ao hotel, desta vez o motorista estava mais bem-disposto e á se ria com a boa disposição de Matilde. Apesar de ter uma fisionomia tipicamente irlandesa, por vezes até pensava que ele até que tinha alguns genes portugueses, especialmente no que dizia respeito à condução, pois tinha o pé bem pesado.
Desta vez, o autocarro ia nos levar à Irlanda do Norte (Tuaisceart Éireann em irlandês), para visitarmos Giant´s Causeway.
Aconteceu-me por vezes que, enquanto viajávamos, ficar destraido por muito tempo e quando voltava a olhar para estrada, assustava-me quase sempre, mas rapidamente me lembrava que estava na terra dos “bifes” e aqui se conduzia ao contrario, aliás interrogo-me porque é que eles têm tudo ao contrário em relação ao resto da Europa, começando pelas unidades de medida até à maneira de conduzir.
Durante as manhãs com neblina, passarmos por velhos castelos abandonados no meio dos extensos prados, imagino como Bram Stoker arranjou inspiração para escrever um dos livros mais conhecidos em todo o mundo, que passou posteriormente para o cinema: Drácula. Para além de Bram Stoker, também Oscar Wilde é um dos escritores irlandeses mais conhecidos em todo mundo.
O Norte é talvez a parte mais bonita de toda a Irlanda. O relevo é ligeiramente ondulado com pequenas colinas muito verdejantes de prados e pequenas florestas. Ao aproximarmo-nos da costa, no meio do oceano vislumbramos a Escócia. O autocarro aqui anda relativamente perto das falésias. As vistas são fabulosas, os prados estendem-se mesmo até junto ao mar, como se ali tivesse sido colocado ali um tapete verde. Também passamos por bonitas praias, com o sol que estava até dava vontade de dar um mergulho, mas logo me lembra que a temperatura exterior não era a que estava dentro do autocarro.
Finalmente chegamos às Giant´s Causeway. Aqui existe um pequeno museu, algumas lojas e restaurantes. Para lá chegarmos tivemos de andar um pouco, cerca de quinze minutos. Estas formações rochosas em forma hexagonal, fazem-me lembrar os favos das colmeias. Estas rochas de basalto tiveram origem há cerca de 60 milhões de anos devido às erupções vulcânicas e erosão nos anos sucessivos. Apesar da extrema erosão que estas maravilhosas rochas tiveram ao longo dos anos, noto que é a erosão humana que está a desgastar ainda mais estas formas rochosas. Interrogo-me se os geólogos ou os responsáveis por este parque têm noção disso.
Ao percorrer os “favos” bem junto ao mar, com uma brisa amena, a pequena rebentação das ondas faz-me divagar um pouco nos meus pensamentos e imagino o som da flauta do James Galway. Estar aqui,facilita bastante deixar-nos evadir por uma certa melancolia e concluo que é perfeitamente natural que estas terras haja muitos mitos is lendas. Áliás, cada uma destas pedras tem uma lenda. A propósito, existe aqui uma lenda que fala do gigante Finn Maccool que construi uma passagem entre Irlanda e a Escócia para depois poder desafiar o gigante escocês Benandonner. Deste modo, Ben não tinha como fugir à prococação. Mas à medida que Ben se vai aproximando através da passagem, Finn fica horrorizado com o tamanho do seu oponente. Foge para sua casa para junto da sua mulher e filho. A solução encontrada por Finn e Oonagh, sua mulher, foi vestir-se de criança e esconder a verdadeira criança. Quando Ben chega a casa de Finn de depara com aquela enorme criança, fica de tal modo estupefacto que nem consegue imaginar de que tamanho seria o pai. Aterrorizado com a possibilidade de o encontrar, foge para Escócia a toda a velocidade que podia, destruindo a passagem que tinha sido construido por Ben.
Estas pedras por onde eu ando a deambular são o resto dessa passagem.
Ao almoço, fomos a um restaurante típico, onde não faltou o homem com a gaita-de-foles e que para além desta tocava também pífaro e violino. Só quando ele começou a tocar o Viva la Espanha para nos agradar e nós respondemos com um Viva a Portugal é que ele percebeu que éramos portugueses.
O guisado de borrego típico daquela zona não me agradou muito, mas houve quem tivesse gostado, talvez porque depois de beberem aquelas cervejas de litro diluísse melhor o gosto do ensopado.
Como o almoço se prolongou, saímos um pouco mais tarde que o previsto, para desespero do motorista e da Paula que muito se preocupava com o bem-estar de todos.
De regresso a Dublin. Antes de entrarmos na Republica da Irlanda (Poblacht na hÉirean -irlandês) passamos por Belfast e recordo-me dos bailes da minha terra quando era miúdo e cantávamos Sunday Bloody Sunday dos U2. O passado recente desta cidade não me deixa indiferente com os conflitos que aqui houveram tendo como pretexto a religião para incendiar ódios que ainda hoje perduram. Ódios que são usados e manipulados para que alguns mesquinhos políticos atinjam suas hipócritas ambições.
Como é o meu último dia na Irlanda, não tinha muito mais tempo. Ao contrário do resto do pessoal eu tinha de partir na madrugada seguinte. Mesmo assim ainda deu tempo para ir ao “frenético” centro de Dublin, onde fomos jantar a um italiano que fez a delícia dos que decidiram beber cinco garrafas de Rosé e muitas mais cervejas. A noite não ficou completa sem uma visita ao mítico Temple Bar, que ajudou para atestar com mais umas cervejas para quem ainda não tivesse suficientemente satisfeito.

Fiquei com vontade de voltar a esta terra de lendas e mitos criados pelas simpáticas pessoas, paisagens verdejantes que se fundem com o azul-escuro do mar.

Um muito obrigado aos meus queridos amigos Aristides e Paula por me terem proporcionado esta viagem. Sei o quanto custa organizar este tipo de viagem. Conduzir pessoas sem que elas se apercebam que estão a ser conduzidas não é fácil devido à diversidade de personalidades, e conjugar a vontade de todos exige bastante perícia. Mas Paula fê-lo na perfeição, esteve sempre sorridente e prestável, para quem da ajuda dela necessitasse.



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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

GEO-RAID Aldeias de Xisto


(clicar nas fotos para ampliar)

Para além da maratona de Serpa, já faz muitos anos que não participo em qualquer prova. Desafiado pelo António Gavinho e por mais alguns amigos do “pedal”, resolvi aceitar este desafio bem duro. http://www.geo-raid.com/
Esta prova de dois dias em orientação com GPS, é feita em equipa de dois elementos.
O meu parceiro para este desafio foi o AG e corremos com o patrocínio Caminhos da Natureza- Montane..... (
http://www.caminhosdanatureza.com/) (http://www.montane.co.uk/)
O primeiro dia foram cerca de 100km com desnível de acumulado com cerca de 4000mt. Só para dar uma noção deste acumulado, é quase subir à Torre na Serra da Estrela a partir da Covilhã três vezes. Para fazer uma prova destas a gestão de esforço torna-se fundamental, como tal decidimos fazer a corrida de trás para frente.
Como era de esperar na primeira subida passam por nós muitas equipas, muitas delas viriam a pagar a “factura” mais tarde por meterem um ritmo mais forte. Por outro, lado o nosso ritmo constante a partir do meio da prova veio a revelar aquilo que se esperava, começamos a passar algumas equipas que já iam bem desgastadas. Como íamos bastante tranquilos dava-nos oportunidade de desfrutar os maravilhosos trilhos, a belíssima vegetação outonal da serra da Lousã e as recentemente recuperadas aldeias de xisto.
As últimas subidas são feitas com um desgaste enorme, o AG sente-se melhor do que eu. A falta de treino reflecte-se principalmente na zona lombar e naturalmente nas pernas. Finalmente a descida final. Um pneu teimoso do AG que perdia algum ar fez-nos perder algum tempo, mas nada de especial. Neste caso o Amaral e o Fernando tiveram bem mais azar pois partiram um desviador. A ajuda do Miguel foi providencial. Apesar de estarmos em competição todos se ajudam no caso de haver problemas e isto é um espirito que me agrada bastante, colocando a competição para segundo plano.
Chegamos em 15º na geral com um tempo de cerca 6.36 horas, não contávamos com tão boa prestação.
Ao acordar no Domingo as pernas diziam-me para estar “quietinho” e recomendavam-me umas massagens, mas a cabeça com mau feitio, insistia em ir faze-las pedalar, para além do mais o AG matava-me e os restantes amigos do pedal crucificavam-me.
A distancia iria ser cerca de 65kms com um acumulado de subida de cerca de 2000mt.
Como a etapa ia ser mais curta decidimos colocar um ritmo mais forte na subida inicial com cerca de 20km. Na classificação geral havia algumas equipas com tempos muito aproximados dos nossos o que ameaçavam o nosso lugar na classificação.
No primeiro terço da subida parto a corrente da bicicleta. Perdemos cerca de 5mt na reparação desta avaria. Com esta perda de tempo fomos atrás do “prejuízo”. Ao retomarmos a subida e com o arrefecimento dos músculos não consigo retomar o ritmo que levava o que faz com que eu chegue ao alto do Trevim um pouco “empenado”. Este empeno é recompensado com vistas fabulosas desde a Serra do Açor até à Serra da Estrela.
As descidas são alucinantes, desta vez sou eu que tenho de esperar pelo AG. Bem que o AG podia ter subido um pouco mais rápido e depois eu iria apanha-lo na descida, não perdendo muito tempo assim. Mas a realidade não é bem assim, pois tínhamos de passar nos postos de controle juntos.
Quase ao chegar ao rio Ceira a concorrente da equipa nº1 tem uma queda aparatosa devido ao esvaziamento repentino do pneu. Ao contrário do que se pensava inicialmente, não teve consequências muito más para além de uns esfolões e de uns pontos devido aos cortes.
Finalmente a meta. Desta vez chegamos em 18º com um tempo de cerca de 4.15 horas. Na classificação geral caímos um lugar para 16º na geral.

No fim da prova e depois de saciarmos os nossos corpos “hiper” desidratados, reunimo-nos numa agradável cavaqueira.
Foi bom voltar a ver o pessoal da Seita, dos Raids de Aventura, do Núcleo Duro e outros mais desde o triatleta olímpico Bruno Pais, ao alpinista João Garcia, onde tivemos oportunidade de trocar impressões sobre o Equador, pois ele tinha estado uns meses antes de mim a fazer alguns cumes.
No meio desta competição e algum sofrimento, são estes os momentos de convívio que acabam por perdurar na minha memória e que me fazem voltar, por muito “empenado” que fique.

Parabéns ao Malvar e Queirós pela excelente organização, irrepreensível.


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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

POR UM PLANETA MELHOR

-Queridos amigos.
Finalmente produzo toda a energia que a minha casa necessita, posso dizer que sou "livre".
Mais digo, que foi um grande passo para mim, mas não deixa de ser um pequeno passo para o nosso planeta.
Se todos vocês também contribuírem um pouco, ai será um grande passo para a humanidade, especialmente para o nosso pequeno planeta Terra.
-Dear friends.
Finally I am producing all the energy that my house needs, I can say that I am "free". Most say, that was a big step for me, but it is a small step for our planet. If all of you, also contribute a little, there will be a big step for the humanity and especially for our small planet Earth.
-Cari amici.
Infine io produco tutta l'energia che ho bisogno di casa mia, posso dire che io sia "libero". Posso dire, che è stato un grande passo per me, ma è un piccolo passo per il nostro pianeta. Se tutti voi anche contribuire un po ', ci sarà un grande passo per l'umanità, specialmente per il nostro piccolo pianeta Terra.
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Entrevista na RTP:
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

EQUADOR

Crónica de uma viagem ao Equador. (clicar nas fotos para ampliar)

Porquê o Equador?
Há cerca de seis anos quando desfolhava uma revista da National Geographic, deparei-me com
uma foto do vulcão Cotopaxi ao nascer do sol. Desde essa altura que essa foto me “martelava” na cabeça e este ano tinha que ser, tinha que lá ir.

Tal como Portugal está para a Europa, na perspectiva americana (é considerado uma província espanhola), também penso que se passa o mesmo ao contrário, ou seja, quando comento que vou de férias para o Equador, a primeira pergunta que me fazem é: para que parte da linha do Equador?
O país Equador não é só passado por uma linha que separa o Norte do Sul do hemisfério. O
Equador tem uma cultura milenar, desde há cerca de seis mil anos, com povos como os Valdivia, passando pelos Chorrera, até chegar aos Incas, que curiosamente só estiveram no Equador cerca de cem anos antes do período em que Pizarro e sua armada de cavaleiros os dizimaram. No entanto, o legado cultural e arquitectónico foi mais que muito e perdura até hoje principalmente com a língua Quichua, que é falada por uma boa parte da população.
O Equador é dos países do mundo com a maior biodiversidade de plantas e animais. Consta que este pequeno país tem mais espécies que toda a América do Norte e Europa juntos. Para esta confluêcia de factores, contribuem as florestas húmidas ocidentais, as florestas húmidas do Amazonas, as florestas das altas montanhas, a cordilheira dos Andes, com dez picos com mais de 5000 metros de altitude, e, por
fim, as ilhas Galápagos, que são o ex-líbris do Equador e que fazem com que este país seja muito conhecido em todo o mundo.
Após onze horas de viagem, e mais cinco horas de escalas, chego a Quito. Apanho um táxi e vou o mais rapidamente possível para o único local que tinha feito reserva para dormir. Durante a viagem, pergunto ao condutor o porquê de não parar nos sinais luminosos. Ele responde-me que não pára para não ser assaltado, e mais, disse que é a própria polícia que o recomenda.
Não podia ter escolhido melhor local para dormir. Acordar, tomar o pequeno-almoço e ver o nascer do sol nos picos com mais 4000 metros, em redor de Quito, no terraço da residencial, foi algo que me fez sentir que estava verdadeiramente de férias.

Durante a manhã, faço uma pequena visita à parte histórica. Quito é uma cidade com cerca de 2.5 milhões de habitantes, ou seja, tem cerca de 20% da população do Equador. Como quase todas as cidades da América do Sul, só se pode andar tranquilamente de dia, de noite é imprescindível ir de táxi quando nos queremos deslocar. Quito está situada no corredor dos vulcões e é a segunda capital mais alta do mundo, a cerca de 2850 metros de altitude. De facto, sinto os efeitos desta altitude quando tenho de correr para não ser atropelado por um carro. Além do susto, a altitude em que me encontrava manifestou-se também na respiração.
Toda a parte velha da cidade tem bem marcado o colonialismo espanhol. No entanto, ao deambular pelas ruas, vê-se um colorido humano muito bonito em contraste com o estilo ocidental. Cruzam-se os equatorianos, que se vestem como ocidentais, e as indígenas, com as suas vestes características, carregando mil coisas à cabeça, que para mim parecia quase impossível, caso tivesse que ser eu a carregar tudo aquilo.
Passadas algumas horas, estou um pouco saturado de estar em Quito. O trânsito é infernal, autocarros velhos e milhares de táxis tornam o ar irrespirável. Se a tudo isto, juntarmos a altitude em que se encontra a cidade e o facto de não haver vento, temos a explicação para que a cidade, ao meio-dia, tenha uma camada de fumo, tornando o ar muito “pesado”. Só para dar um exemplo, quando me desloquei de táxi para o terminal de autocarros, passo por um túnel e ao sair, respiro com bastante dificuldade, tendo em conta que estava a sufocar e a fazer uma apeneia devido ao intenso fumo que aí se concentrava. Decidi que não queria ficar mais tempo nenhum na cidade.
No terminal de autocarros, a confusão é mais que muita. Vendedores de bilhetes berram para chamar a atenção dos destinos que vendem. Perguntam-me onde quero ir, só que ainda não decidi. Entretanto, olho para uma “barraquinha”, que vende bilhetes, e vejo anunciado Puerto Quito, consulto o mapa e vejo que esta pequena vila está na parte ocidental do Equador, nas florestas húmidas. É mesmo isto! Compro o bilhete e corro para apanhar o autocarro, que já estava de partida.
No Equador, em quase todos os autocarros que andei, tive que entrar e sair do autocarro em andamento, nunca param para não perderem tempo, e sinceramente não sei como não me estatelei no chão em algumas ocasiões.
Andar de autocarro no Equador é uma aventura, sempre em alta velocidade. Os motoristas ultrapassam em qualquer curva ou descida, desde que haja espaço, de resto, com mais ou menos folga, o autocarro passa sempre.
Inicialmente, vou como os Flinstones, ou seja, com os pés sempre a fazer pressão no chão do autocarro, a travar (como se valesse de alguma coisa), mas depois, com o tempo, descontraio e aprecio a paisagem, ao longo da viagem, que aliás é fabulosa. Só quando olho pela janela e não vejo o caminho, apenas vejo precipícios enormes, é que as minhas pulsações sobem um pouco.

Após três tortuosas horas, chego a Puerto Quito. Quando saio do autocarro, sem saber bem porquê, recordo-me da minha
osteopata, com quem tive consultas há dois anos, pois tenho a coluna feita num oito. Puerto Quito fica a cerca de 600 metros de altitude. A humidade é um pouco insuportável. Nesta aldeia não se passa mesmo nada, para além de ser um ponto de passagem, encontram-se algumas lojas onde se vende praticamente tudo. Como são quatro da tarde, começo a pensar num local para pernoitar. Vou até uma taberna, meto conversa e pergunto se há por ali algum local para dormir. Informam-me que há por lá um biólogo americano, que criou uma reserva e que dispunha de quartos para alojamento e que fazia ainda visitas guiadas à floresta húmida. Era mesmo isto! O problema é que ninguém me conseguia dizer ao certo onde era. Consigo o número de telefone dele e ligo-lhe. Falo então com o americano, de nome Raul, que quando me pergunta quantas pessoas são e eu respondo que era apenas uma, deixa subitamente de ter camas disponíveis para dormir...
Continuo à procura. Entretanto, encontro um homem, que me diz que a tia dele tem umas cabanas para pernoitar. Oferece-me boleia na mota, que dali a pouco deixa de ter força para subir. O caminho, além de ser bastante íngreme, é também muito lamacento. Mais um pouco a pé e chego a uma casa onde estava a senhora Ayála. Fico aliviado, tem comida e sítio para dormir.

Para chegar ao local da pernoita, tenho de andar mais cerca de uma hora.
A humidade é insuportável e o caminho continua muito acidentado e lamacento. Até a senhora Ayála, que faz este caminho há mais de cinquenta anos, reclama, pois está cansada de fazê-lo a pé nestas condições.
Finalmente chegamos a uma casa, mas ainda não é aqui que vou dormir. Depois de beber uma limonada fresca, tenho de andar mais um pouco até chegar à cabana. Os meus olhos e ouvidos regalam-se com a vegetação luxuriante e os sons intensos dos animais e mais ainda com a cabana onde vou dormir. Assente em cima de estacas, por causa das inundações e dos animais, a cabana é muito simples com duas camas, uma retrete e um chuveiro improvisado num anexo ao ar livre.
Depois de um duche, estou todo suado outra vez, a humidade é insuportável. Começa a chover. Tomar um duche de chuveiro ou à chuva não é muito diferente, a temperatura da água é exactamente a mesma.
Antes de jantar, o filho da senhora Ayála, Darwin, dá-me uma lição de botânica sobre uma enorme quantidade de plantas, sobretudo sobre as suas aplicações terapêuticas. É curioso que ele tem o mesmo nome do famoso biólogo, Charles Darwin, que deu a conhecer ao mundo o arquipélago das Galápagos.
À noite janto com a família.

Tal como nesta família, quase todas as pessoas desta zona praticam uma agricultura de subsistência, dedicando-se essencialmente à cultura de cacau e café, não deixando de ter ainda algum gado e árvores de fruta.
Depois do jantar, vou para a cabana e apesar da escuridão da noite, consigo orientar-me no meio da floresta. Muitas pessoas ficam apavoradas por caminhar à noite, mas eu simplesmente adoro, especialmente com chuva e com ruídos estridentes de animais que desconheço e que nem sequer nunca os vi. Mesmo com aquele ruído intenso dos animais durante toda a noite e da chuva, dormi cerca de onze horas. Em Portugal, mesmo que quisesse não o conseguiria. A directa da viagem e ter dormido somente três horas em Quito, fizeram mossa. Arrumo as minhas coisas e vou tomar o pequeno-almoço com a família. Os pequenos-almoços no Equador agradam-me bastante: começo sempre com uma salada de fruta, depois doce com pão, e para finalizar uma omeleta sempre acompanhada de sumo natural.

Este local é fabuloso, mas não quero ficar aqui mais dias. Dentro de dois dias vou começar a fazer caminhadas, acima dos 4000 metros, e eu estou demasiado baixo, necessito começar a aclimatização.
Despeço-me da família e retomo o caminho até Puerto Quito. Volto a falar com as mesmas pessoas de ontem enquanto espero pelo autocarro, que não demora muito tempo a aparecer e a apitar imenso para sinalizar a sua presença e para que as pessoas se apressem.
A minha ideia inicial era regressar a Quito, passando pela La Mitad Del Mundo, e apanhar posteriormente um autocarro até Otavalo. Dizem que é uma cidade muito típica mas também muito turística.

Duas horas e meia de autocarro depois, estou em La Mitad Del Mundo. Foi aqui que, em 1736, Charles-Marie de la Condamine provou que a linha do equador passava por ali. A sua expedição também quis provar que o mundo não era redondo, e foi graças às suas medições que surgiram novos sistemas métricos de referência.
Como é natural, construíram neste local um monumento e alguns museus para os turistas lá irem tirar algumas fotografias e deixarem alguns dólares… E eu também, como não poderia deixar de ser, embarco na onda.
Medições recentes, com ajuda do GPS, mostram que a linha do equador passa 240 metros ao lado onde está actualmente marcada a linha e o monumento, mas é claro que isso não conta, o que conta para o comum turista, como eu, é este local.

Não deixa de ser curioso estar com um pé no Hemisfério Norte e o outro no Hemisfério Sul.
Após uma breve visita, almoço por ali. Eu que não costumo comer fritos, caio na asneira de comer umas batatas fritas bem oleadas, o que me provoca de imediato uma terrível indisposição. Como não me apetece andar de autocarro para fazer mais duas horas de viagem, mas também não quero ficar parado, junto-me a uma pequena excursão para ir visitar umas ruínas arqueológicas e um miradouro ali perto, a cerca de 5 km.
Quando chego ao Mirador de Ventanillas, fico deslumbrado com a vista. À minha frente tenho uma enorme cratera do extinto vulcão Pulalahua (“nuvem de água”, em Quichua). Parece que o vulcão colapsou há cerca de 2500 anos. No centro da cratera existe um cone, de nome Loma Pondoña, com 2975 metros. Tudo o que eu vejo à minha frente pertence à Reserva Geobotânica Pululahua.
Enquanto estávamos a ouvir a ladaínha do guia a dizer que tiveram de monitorizar o vulcão
devido ao registo de alguma actividade, que de noite se encostarmos o ouvido ao chão escutamos o rumor da terra, que é a única cratera habitável em todo o mundo (embora eu conheça mais três: uma nos Açores e duas em Cabo Verde), que as pessoas duram quase até aos 100 anos, há algo que menciona que me interessa muito, que existe por ali perto um pequeno Hostal.
Enquanto ele continua com a sua história, já eu estou a tirar da mochila os bastões de caminhada.
- Kaya Kaman (Quichua) ou hasta otro dia (castelhano) - aí vou eu!
Meto-me pelo trilho muito íngreme, que me levaria à base da cratera. Enquanto desço, olho por duas vezes para trás, e o guia e as pessoas ainda lá estão a dizer-me adeus, um pouco incrédulos com a minha rápida decisão. Nem imagino o que lhes vai na cabeça a meu respeito.
Quando chego à base da cratera, esta parece-me bastante maior.
Finalmente chego ao Hostal, que pertence a um casal equatoriano. Renato e Paola viveram muitos anos nos EUA, regressaram e compraram o terreno com uma casa abandonada. O
trabalho que eles têm feito é notório, não só por recuperarem a casa, mas também pelas preocupações ambientais que manifestam. Fizeram um levantamento da fauna e flora existente nesta reserva e mapas com percursos pedestres, de bicicleta e a cavalo. Praticam uma agricultura sustentada e ecológica, onde os géneros alimentares que se retiram da terra são para consumo exclusivo do Hostal, ou seja, o que ali se come é proveniente do próprio terreno.
Neste momento, tal como eu, estão a projectar instalar painéis foto-voltaicos. Inevitavelmente trocamos muitas ideias. Ao jantar, para além da companhia de Renato e Paola, tenho também três biólogas americanas (Sarah, Caroline e Solveig), que já estão a viajar há cerca de três meses pelo continente sul americano, e que já aqui estão há alguns dias. Como tema de conversa para o jantar, optámos por falar mal do Bush (para minha satisfação).
Já com uma boa noite de sono, planeio fazer uma caminhada na cratera e contornar o cerro Pondoña. Entretanto, as americanas e Paola vão andar de cavalo. Convidam-me, mas eu tenho uma conversa com os meus botões e penso que elas devem ter muita experiência nesta actividade, e eu ainda estou na fase em que o magnetismo da terra exerce muita força sobre mim, fazendo sempre actuar a lei da gravidade, como tal, é melhor manter os pés bem assentes na terra. Depois de as ver a montar, fiquei feliz por perceber que tomei uma decisão mais do que acertada, as “amazonas” montam muito bem.

Inicialmente, o caminho é pelo meio dos campos, que estão prestes a receber as sementeiras, pois aqui fazem
-nas durante os solstícios (21 Setembro e 21 Março). Os terrenos são muito férteis, ao ponto de fazerem duas colheitas por ano sem ser necessário usarem adubos. Toda a cratera está dividida em parcelas de um hectare, o que perante estas áreas a agricultura é de subsistência.
Os campos cultivados dão lugar ao bosque e a um trilho. A erosão causada pelo homem, ao longo dos últimos 1000 anos e pela água, fez um trilho bem escavado no chão com partes em que este tinha mais de três metros de profundidade. Isto e o facto de o trilho estar ladeado de floresta virgem e altas montanhas, faz com que este local ofereça um cenário absolutamente esplendoroso.
Depois uma hora a serpentear por este trilho, percebo que estou no caminho errado, ou seja, estava a subir demasiado e para o lado errado. Retorno e depois de algum tempo encontro o trilho correcto.
Mais uma hora passa e o trilho dá lugar a um caminho. Chego à base do cone Loma Pondoña. Aqui a vegetação é mais rasteira, toda esta zona foi destruída por uma derrocada de pedras, que destruiu também uma pequena aldeia.
Uns quilómetros mais abaixo, existem umas piscinas naturais com águas termais quentes, o que é bem tentador, mas para lá chegar precisaria de mais três horas e hoje ainda tenho de ir para Quito.
De volta ao caminho, passo por alguns campos agrícolas e também por uma casa , que ao que parece, era onde os espanhóis torturavam os nativos. Mais outra hora e estou de volta ao Hostal.
Entretanto as “amazonas” já tinham regressado, fizeram o mesmo percurso que eu, mas nunca as vi, muito provavelmente devem ter passado por mim quando me enganei no caminho.
Almoço com as americanas e com mais um casal, proveniente da Alemanha, que entretanto tinha chegado.
Tenho de partir. Este local vai deixar-me algumas saudades - as pessoas, a comida, a vegetação primitiva, podia estar aqui mais uma semana que tinha muitos trilhos centenários para percorrer, mas tenho de partir. Despeço-me e retomo ao trilho que tinha feito para chegar à cratera.
Enquanto subo, passa um homem com um cavalo e uma vaca. Falo com ele, distrai-se um pouco e o cavalo e a vaca fogem. Este desata a correr pela montanha abaixo no meio das pedras a gritar, em Quichua, provavelmente um rol de todas as asneiras em língua inca.
Durante a subida cruzo-me com alguns nativos. As pessoas desta zona são de uma estatura muito baixa. A média de longevidade das pessoas, pelo contrário, é muito alta, são muito resistentes.

Para além deste trilho íngreme, existe uma estrada em terra para aceder à cratera, só que esta tem cerca de 20 km, por isso este trilho é a principal porta de acesso. Uma professora originária de Quito faz este trilho todos os dias para dar aulas na pequena escola daquela localidade.
Estou quase a chegar novamente ao colo Mirador de Ventanillas e oiço um homem a praguejar. É o homem do cavalo e da vaca com uma vara na mão a dar açoites nos animais. Passa por mim a todo “gás” e quase que a vaca me dá uma cornada.
Chego ao colo e encontro o guia do dia anterior, com mais um grupo e com o mesmo discurso. Vê-me e fica todo curioso. De repente, vejo-me a fazer de guia e a contar o que se encontra no entorno desta cratera.
O guia oferece-me boleia, mas tenho de esperar um pouco. Fico à conversa com uma francesa, que está a um dia de completar as suas férias, só que estas já têm um ano, pois anda a dar a volta ao mundo. Vai voltar a França mas quer ir viver para o Haiti.
Depois da boleia até à La Mitad Del Mundo, volta o “stress” dos autocarros. Os suburbanos têm
uma particularidade: os motoristas ganham consoante o número de passageiros que conseguem apanhar e isto faz com que andem sempre a ultrapassar-se uns aos outros a alta velocidade. No meio desta correria, como habitualmente, as pessoas entram e saem com o autocarro em andamento. Entram vendedores ambulantes com tudo aquilo o que se possa imaginar, e com o deambular do autocarro tornam-se em verdadeiros equilibristas para se manterem em pé.
Em Quito vou voltar a dormir no mesmo sítio da primeira noite em que cheguei. O Secret-Garden é um local muito acolhedor e simpático, os quartos e salas foram pintadas pelos clientes, tornando o local bastante familiar e agradável. Encontro aqui pessoas de todo o mundo.
Por um acaso, conheço os donos, ele, equatoriano, e ela, australiana. Ao jantar, a conversa andou um pouco à volta da economia do Equador, aquando da grave crise em 1998, e sobretudo o impacto que teve a introdução do dólar americano como moeda oficial no Equador.

Hoje vou começar as caminhadas de aclimatização, para me preparar para tentar subir o Cotopaxi e o Ximborazo. Como se trata de alta montanha e torna-se muito perigoso fazê-la sozinho, contactei uma agência de actividades nesta área para que eu fosse inserido num grupo e, claro, com guias. Normalmente sou eu que faço de guia em actividades de montanha, mas desta vez vai ser ao contrário.
O ponto de encontro é à entrada do Secret-Garden e pelos vistos não sou o único que espera
boleia. Ali estava também um dinamarquês que vai fazer parte do grupo. Apesar de ser dinamarquês, actualmente trabalha e tem uma firma de informática na Alemanha. De constituição forte, Anders, já percorreu meio mundo e muitas montanhas.
Enquanto nos apresentamos, aparece a carrinha com o resto do grupo, o guia e três espanhóis. O guia Franklin, o casal valenciano, Carlos e Teresa, e a catalã Sílvia.
Tal como eu, Carlos é um amante do BTT, enquanto Teresa gosta mais de montanhismo. Sílvia, desde que descobriu os prazeres de andar nas montanhas, não quer outra coisa. No ano passado, esteve na Bolívia e no Peru onde fez alguns picos e a fantástica cordilheira branca. Sílvia já cá está há cerca de uma semana e já tentou fazer o difícil pico Cayambe, com 5790 metros, mas não
conseguiu devido ao mau tempo. Estes três espanhóis têm uma experiência em comum, apesar de nunca se terem conhecido, tinham estado a fazer o Monte Branco como preparação antes de vir para o Equador.
A carrinha levou-nos até à entrada do refúgio de vida silvestre Pasachoa. Esta reserva está situada nos flancos do lado norte do extinto vulcão Pasachoa com elevações desde os 2900 até aos 4200 metros.
Inicialmente a caminhada é no meio da única floresta húmida, intacta na zona do corredor dos vulcões. A vegetação é simplesmente luxuriante, com flora que vai desde árvores nativas coníferas às delicadas orquídeas. Só nesta pequena reserva existem mais de cem espécies de aves.
O trilho é bastante escavado no terreno a vegetação extremamente cerrada e em algumas partes
é tão cerrada que dá a sensação que está a anoitecer. Após duas horas, a vegetação cerrada vai dando lugar a algumas clareiras e depois a uma vegetação rasteira.
O grupo é divertido, só Anders é mais reservado e a comunicação torna-se difícil, uma vez que a língua predominante é o “portuganhol”.
Nesta fase a vegetação é mesmo rasteira mas muito verde. Estamos a subir ao longo da crista, as vistas são fabulosas. Não tarda muito e estamos quase no pico… quase, porque para lá chegar temos de fazer um passo de escalada nada fácil.

Como não temos material de escalada, decidimos entre todos que ficamos por aqui. Fico com vontade de continuar, a parede não me parece muito difícil, mas o bom senso diz-me para não me cansar e não arriscar muito. Para o primeiro dia não está nada mal, fizemos, dos 2900 aos 4000 metros, cerca de 1200 metros de desnível de subida. O ritmo de subida foi muito bom, só o nórdico me pareceu um pouco ofegante na zona da floresta, mas é natural porque fazia algum calor e havia alguma humidade. A descida é feita muito rapidamente, rápida de mais para o meu
gosto, não quero forçar os meus joelhos, Sílvia também reclama, está um pouco cansada, o que é natural, afinal de contas tinha estado há dois dias a tentar subir o Cayambe.
A meio da tarde estamos de volta à carrinha, que nos vai levar de volta a Quito.
Desta vez em Quito, fico num hotel com o resto do pessoal. À noite vamos jantar a um restaurante bem perto do hotel e vêem-se muitos seguranças armados. Este quarteirão é o único onde se pode andar com alguma segurança. Sílvia diz-me que há três noites atrás já a tinham tentado assaltar, valeram-lhe as pernas para correr e fugir.

Hoje vamos fazer o vulcão Pichincha. É um vulcão activo e fica mesmo junto a Quito. Este vulcão tem um currículo de destruição impressionante. Em 1660, uma forte erupção cobriu Quito, deixando a cidade com 40 centímetros de cinza. No século XIX registaram-se três violentas erupções e mais recentemente, em 1999, o vulcão expeliu uma nuvem de fumo, com cerca de 18
quilómetros de altura, cobrindo a cidade de cinzas. Este vulcão tem dois picos: Guagua Pichincha, com 4784 metros, e Rucu Pichincha, com 4698 metros (respectivamente “vulcão criança” e “vulcão homem velho”, em Quichua). O pico que vamos fazer é o Rucu, pois o Guagua está activo e é necessário dois dias para lá chegar.
Assim, primeiro temos que apanhar o teleférico que nos vai levar até aos 4100 metros de altitude (actualmente é a jóia da coroa de Quito, mas também consta que é o CCB ou a casa da Casa da Música equatoriano, em termos de derrapagem financeira).
Inicialmente o caminho é bom, sem uma inclinação muito acentuada, as vistas também são deslumbrantes, mas não por muito tempo, pois as nuvens sobem muito rapidamente pelas encostas da montanha, sinal que iremos ter chuviscos e vento.

Inicialmente encontramos alguns acampamentos de pastores, que estão por ali com os seus rebanhos, manadas e cavalos, também os trajes dos vaqueiros são bonitos e dás-lhes um ar muito arranjado. Como era de prever, o tempo fecha e a temperatura cai bastante, devem estar cerca de 2ºC. Começa a chuviscar, chuvinha que passa a granizo e empurrada pelo vento torna-se muito desagradável.
Durante a subida encontro o casal alemão com quem tinha estado em Pululahua.
Os últimos 200 metros de desnível são bem inclinados. Inicialmente fazêmo-los em terra vulcânica, muito macia, em que a progressão é muito lenta e depois, com alguma escalada pelo meio, a altitude já começa a notar-se, e bem, tornando os nossos movimentos ainda mais lentos e
pensados.
Finalmente o cume. A visibilidade é nula. Sinto-me bem e sem frio. Teresa está bem, ela é muito forte. Carlos tem as mãos geladas e diz-me que sofre sempre muito quando faz ski. Sílvia, com a sua boa disposição de sempre, canta e dança, queixa-se que tem sempre problemas de temperatura corporal nas extremidades, mãos e pés. O nórdico Anders parece-me bem fisicamente, mas tenho dúvidas quanto à sua condição física para os dias seguintes. Para o nosso guia Franklin, habituado a estas altitudes, este é seguramente um passeio de fim de tarde.
Esta montanha é a que tem mais turistas, e por isso mesmo é onde ocorrem mais acidentes e muitos deles acabam mal. Como é muito perto de Quito e tem teleférico, há muita gente mal preparada que se arrisca por ali, com pouco ou nenhum equipamento. Este “facilitismo” torna esta montanha a mais mortífera do Equador. De facto, quando desço, tenho a oportunidade de constatar o quanto as pessoas estão mal equipadas.

Tal como ontem, Franklin impõe um ritmo muito forte a descer, mais uma vez Sílvia e eu ficamos para trás, queremos poupar ao máximo os joelhos.
A descida no teleférico é morosa, primeiro porque está muita gente e depois, quando estamos dentro da cabine a descer, o teleférico pára. Ficamos ali suspensos a cerca de 500 metros de altura do solo. Por muito que brincássemos com a situação, o nervoso miudinho começava a assomar as nossas mentes.
Mais uma vez vamos ficar no mesmo hotel e, tal como ontem, jantamos por ali perto. É o último dia que vamos ficar em Quito. Até agora, as montanhas, que já tínhamos feito, tinham sido meras "borbulhas”, mas a partir de amanhã, aí sim, as dificuldades iriam ser outras com as montanhas que seriam de mais de 5000 metros.

Passámos esta manhã a preparar o equipamento e a carregar a carrinha que nos vai levar até ao acampamento base a 3900 metros. O guia é outro, Fredy. Tem uma fisionomia tipicamente andina: estatura baixa, olhos e boca rasgados, bastante moreno e bastante robusto, tão robusto que deixa as senhoras do grupo de olhos arregalados. Segundo se diz, é um dos mais fortes e um dos melhores guias dos Andes, pois já fez resgates quase impossíveis de pessoas, tanto na selva como nas montanhas.
Após uma hora na estrada, entramos num caminho em muito mau
estado, mas a Ford, com cerca de quinze anos e com 300 cavalos, não se nega a nada, trepa tudo. Claro que somos várias vezes projectados para os lados e para cima, nada a que não estivéssemos já habituados.
Depois de mais uma hora e já muito “amassados”, chegamos ao nosso destino. O local do acampamento é fabuloso, com paisagens lindíssimas. Contudo, o que se avista do cume não é nada agradável, as nuvens passam a alta velocidade, o que é muito mau sinal. Montamos o acampamento. Entretanto, chega um casal de Santander, Teresa e
Alberto. Contam que apanharam um tempo horrível, com muito vento e neve, e que a própria progressão foi de tal modo difícil, devido à neve estar muito mole, que tinha sido impossível chegar ao cume.
O resto da tarde é passada simplesmente a olhar para o horizonte, para “esvaziar” a cabeça das “mesquinhices” que por vezes nos inquietam. Sou interrompido por uma violenta trovoada que se aproxima e que nos obriga a recolher para dentro das tendas.
É uma da manhã, saio para ir à casa de banho (ao ar livre), o céu está totalmente estrelado e a
temperatura caiu muito. É muito bom presságio. Às quatro da manhã, as tendas estão totalmente geladas, pois devem estar uns -5ºC. Um bom saco-cama de -20ºC foi fundamental. Para variar, Sílvia queixa-se do frio, ela pode dormir com o melhor saco-cama, com uma tonelada de roupa e continua a ter frio, sinceramente não imagino o que ela deve sofrer.
Tomamos um pequeno-almoço reforçado e partimos. Ainda é noite, mas como o céu está estrelado e existem restos de neve no chão, isto faz com que haja alguma claridade, o que nos
permite ver na perfeição o Elinisa Norte, com 5126 metros e o Elinisa sul, com 5248 metros. Em tempos, estes dois picos eram um só, mas o colapso da montanha, devido à actividade vulcânica, deu-lhe o actual relevo. Toda esta zona pertence à reserva ecológica Los Elinisas. O pico que vamos fazer é o Elinisa Norte. O Elinisa Sul é muito técnico e é necessário mais de um dia para o fazer.
O chão está totalmente gelado e mais uma hora passa e começa a nascer o sol.
Em todas as viagens que tenho feito, nunca me deparei com um cenário destes. A vista é simplesmente deslumbrante. Em baixo, estão algumas nuvens onde no meio aparecem muitos picos acima dos 4000 metros. De frente, sobressai o maior de todos, e o que está mais perto, o vulcão Cotopaxi, com as suas neves eternas.
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Este momento paga totalmente (e que mais fosse) o bilhete da viagem. A subida prolonga-se por mais cinco horas, lenta e cada vez mais inclinada. A neve está pouco macia, o que dificulta a progressão, mas como o dia está excelente, estas pequenas dificuldades pouco influenciam o nosso estado psicológico.
Os últimos 200 metros de desnível são bastante inclinados. O forte vento de ontem esculpiu o gelo de uma forma espectacular com formações absolutamente extraordinárias.
Finalmente o pico! A vista é fabulosa, indescritível. Gostava que todos os meus amigos estivessem aqui para partilhar comigo este momento. Como isso não é possível, partilho-o com os meus novos amigos, e aproveitamos inclusivé para cantarmos os parabéns a Anders. Feliz da vida, diz que é a melhor prenda que poderia ter, e eu acredito plenamente.
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A parte inicial da descida é um pouco perigosa e como é uma zona de avalanches, temos de esperar porque vêm mais dois grupos para cima. Para além das avalanches, a passagem é muito estreita e o cruzarmo-nos com outras pessoas, obriga-nos a montar segurança.
Ao princípio da tarde, chegamos ao acampamento. Tal como nos dias anteriores, poupei-me bastante na descida, tenho algumas dores de cabeça, o que não é nada normal, e não sei se será da descida ou se da falta de comida.
Desmontamos o equipamento e lá vamos nós outra vez pelos caminhos tortuosos. Eu e o Carlos temos o mesmo pensamento: “que falta fazem aqui umas bicicletas, pois seria bem mais confortável e divertido”. Silvia é que não se importa, dorme… Nem sei como consegue.
Paramos para comer uma deliciosa sopa e para logo de seguida nos metermos na famosa estrada Panamericana e continuarmos para o hotel Cuello de Luna. Este hotel fica junto à entrada do Parque Natural de Cotopaxi e tem uma vista privilegiada sobre o cone do vulcão Cotopaxi com os seus 5897 metros de altitude.

A seguir a um belo repasto e a uma boa noite de sono, estamos de volta do equipamento necessário para fazer a ascensão.
Vamos para o refúgio Jose Ribas a 4800 metros. Para lá chegar mais uma vez vamos ter de fazer duas horas por caminhos de terra com a carrinha. Inicialmente a paisagem é só de bosques (e até aqui o eucalipto já chegou), mas a partir dos 4000 metros a paisagem torna-se um pouco lunar devido à aproximação do vulcão. Enquanto caminhamos vamos passando por pedras enormes por ele projectadas. Apesar de estarmos ainda longe, não deixa de ser impressionante e assustador a força da terra. O Cotopaxi é um vulcão activo que, nos últimos séculos, tem registado varias erupções violentas, em que duas delas destruíram por completo a cidade de Latacunda. Neste momento é um gigante a dormir uma “siesta”, mas que poderá acordar a qualquer momento muito mal disposto, cujas fumarolas visíveis na cratera são disso indicadores
.
Aos 4000 metros, com uma temperatura de 5ºC, no meio do deserto, passamos por um campo de futebol, onde curiosamente está a Selecção do Equador a treinar. Penso logo que é um bom sítio para os meninos bonitos da nossa Selecção treinarem, só que aqui, metia-os a correr pelados, mas como estão sempre cansados com a vida social que têm, era melhor não!
Chegamos finalmente. Temos de nos equipar dentro da carrinha porque lá fora está um vento infernal, acompanhado de granizo.
Como a carrinha apenas consegue ir até aos 4600 metros, temos de fazer os 200 metros que faltam até ao refúgio com mochilas bem pesadas.
Normalmente até aqui vêm muitas excursões com turistas, e muitos deles aventuram-se a ir até ao refúgio, mas como não estão aclimatados demoram mais de uma ou duas horas para fazer um quilómetro e muitas vezes nem conseguem, ficando com dores de cabeça horríveis e com vómitos. A partir dos 3000 metros, uma
pessoa está sujeita, entre muitas doenças, a contrair duas das mais graves: edema pulmonar e edema cerebral, e ambas podem ser fatais. Como tal, torna-se necessário fazer uma adequada aclimatização com um bom descanso e uma alimentação equilibrada.
Finalmente chegamos ao refúgio, o tempo melhora um pouco. De início, tínhamos planeado ir fazer um pouco de escalada em gelo, mas como as condições climatéricas são muito adversas, vamos ficar no refúgio a descansar e a hidratar. Estar aqui neste refúgio não me deixa propriamente tranquilo, já foi destruído duas vezes por avalanches, sendo que uma delas matou todas as pessoas que lá se encontravam.
Voltamos a encontrar o casal de Santander e também o guia Edgar, que este ano já tinha estado com o nosso bem conhecido João Garcia. Para além deles, está a Andreia, do Panamá, e o Manoel, do Brasil. Este simpático casal tem como ocupação viajar, isso mesmo. Manoel, formado em medicina, já viaja há cerca de vinte anos.
Tem um currículo de viagens impressionante, conhece quase todos cantos do mundo, mas conhece muito mal o melhor canto, que é, claro, Portugal.
O grupo é muito animado, todos temos mil e uma histórias das nossas aventuras para contar, enquanto nos hidratamos com litros e litros de chá. A hora de recolher é pelas 19h e iremos despertar pela meia-noite.
Pressinto que ninguém consegue adormecer, a ansiedade é muita. Para ajudar, o vento sopra muito forte, fazendo com que as telhas de zinco abanem e façam um barulho contínuo e irritante.
É meia-noite, saltamos da cama que nem umas molas, quase ninguém dormiu, uns pelo vento, outros pelo frio. Comemos e bebemos, a esta altitude o nosso organismo não “puxa” mesmo nada, torna-se necessário
forçar a ingestão de alimentos.
Saímos pela uma da manhã, estão cerca de -10ºC, mas o vento acalmou um pouco e vêem-se os enormes glaciares. Está um silêncio de morte, estamos todos muito concentrados a caminhar, um passo de cada vez, muito devagar.
Os primeiros 100 metros de desnível são em terra vulcânica congelada até entrarmos finalmente no glaciar. Eu vou encordoado com Anders e o bem disposto Franklin, que entretanto se juntou ao grupo na noite passada com o guia Juan. Juan leva Teresa e Carlos, Fredy leva Sílvia, o casal de Santander vai com outro guia e finalmente Manoel e Andreia vão por conta própria, eles são muito experientes e têm percorrido os picos em todo o mundo, desde os Himalaias aos Andes.
A temperatura continua a cair, estão cerca de -15ºC e o vento aumenta de intensidade. Cada grupo segue o seu
ritmo, embora eu considere que os guias impõem um ritmo demasiado acelerado, parecendo que até fazem competição entre eles para ver quem chega primeiro com o seu grupo. Aos 5300 metros, o casal de Santander desiste de subir, penso que terá sido por ela que é menos resistente, ele pelo contrário é muito forte. Este ano já tinha feito sozinho o monte Mckinley no Alasca, que apesar de ter 6138 metros é considerado um dos locais mais frios do planeta com temperaturas médias de – 50ºC.
Anders preocupa-me um pouco, por várias vezes pára e está ofegante. Estas quebras de ritmo não me agradam nada. Mais uns metros e começa a cair de joelhos algumas vezes. Falo com Franklin,
pois o melhor é levá-lo rapidamente para baixo, não vale a pena continuar. Como o Carlos e a Teresa vão um pouco mais à frente, acelero o passo para os apanhar e juntar-me a eles, e apesar de estarem ali perto, parece-me uma eternidade chegar até eles.
Fredy e Sílvia vão bem mais à frente e como são só dois têm um ritmo mais constante. Manoel e Andreia, não sei onde estão.
A temperatura neste momento marca -20ºC, a visibilidade é zero e o vento está cada vez mais forte com rajadas que devem chegar aos 80 km/h.
Devemos estar a 200 metros de desnível de alcançar o cume. A progressão é muito lenta, quando o vento
sopra mais forte temos de nos baixar e fazer segurança para não sermos derrubados. A inclinação média da subida é de 50% e se não temos cuidado facilmente somos projectados para o abismo. Aparecer “congeladinho” daqui a uns mil anos não está propriamente nos meus planos.
Teresa sente-se bem, Carlos está um pouco cansado e com frio, eu, fisicamente estou bem e sem frio, mas um pouco apreensivo, nunca tinha enfrentado condições tão severas.
Continuamos, mas por várias vezes somos projectados para o chão e obrigados a segurarmo-nos com toda a nossa força. Olhamo-nos e, como que por telepatia, decidimos ficar por aqui. Não vale a pena continuar, o tempo está cada vez pior, e mesmo se chegássemos ao cume nem iríamos
dar por isso devido à visibilidade ser nula.
Mais à frente, vejo um espectro de duas pessoas debruçadas sobre o gelo. São o Manoel e a Andreia que se protegem do vento.
Começamos a descer muito lentamente e o vento massacra-nos constantemente.
São seis da manhã, e estamos quase a chegar ao fim do glaciar. Começa a amanhecer e o vento diminui bastante e para descomprimir um pouco tiramos as fotos da praxe e damo-nos conta da camada de gelo que temos na nossa roupa. O próprio Franklin nunca tinha visto nada assim. O cabelo loiro da Teresa, que estava
exposto, parecia esparguete. Entretanto, passa Andreia e Manoel, também eles vieram logo para baixo, tomaram a mesma decisão que nós.
Pelas sete da manhã, estamos novamente no refúgio.
Anders tinha tomado uns comprimidos para a dor de cabeça e estava a descansar. Nós estamos um pouco cansados, mas não desiludidos, fizemos o que podíamos… Continuar, teria sido uma loucura!
Ao longe, vislumbro a silhueta de Silvia e Fredy, e enquanto espero, aproveito para tentar tirar o gelo do equipamento. O meu casaco mais parece um glaciar, tenho de raspá-lo para tirar o gelo.
Chegam Silvia e Fredy, conseguiram chegar ao cume. Naturalmente, Silvia está feliz, diz que tinha de subir, custasse o que custasse. Na semana anterior, tinha tentado subir o Cayambe sem sucesso, mas este tinha de o fazer. Apesar de muito cansada não tem muitas mazelas, apenas os lábios gretados do frio e um tornozelo
todo inchado. Como ela própria diz, é uma cabeça dura. Diz também que se não fosse Fredy a segurá-la por várias vezes, tinha voado com o forte vento que fazia no cume.
O famoso cone perfeito do vulcão Cotopaxi com as neves eternas continua a ser utopia para mim e para todo
s os restantes, mesmo Silvia sabe que esteve no cume porque não havia mais nada para subir - a visibilidade era zero.
Arrumamos o equipamento e descemos para a carrinha.

De volta à Panamericana, o Fredy tem que mudar pelo caminho a correia de distribuição. Mas não tinha sido só este problema, já tinha furado um pneu e os piscas não funcionam. Reparo que ele, antes de travar, dá um ligeiro toque no travão para injectar o óleo na bomba do travão, para que depois possa travar decentemente. Mas a carrinha lá anda e não se recusa a nada.
O nosso destino é Baños, e significa isso mesmo, banhos. Esta pequena vila muito turística está num vale ladeada por picos verdejantes. Antes de chegarmos a Baños, passamos na base do vulcão Tungurahua (“pequeno inferno” em Quichua). De pequeno, pouco tem com os seus 5016 metros. Em 1999 teve a sua última grande erupção. Depois da morte de um australiano e de um equatoriano devido aos gases, procederam à evacuação de 20.000 habitantes de Baños e arredores. Somente passado um ano é que as pessoas poderam regressar aos seus lares. Ainda agora, passados todos estes anos, estão a recuperar pontes e estradas destruídas pela lava.
Aqui ficamos hospedados na confortável Hospedaje Higuerón. O dono, Navarrete, já foi um grande guia de montanha e neste momento dedica-se a fazer uns óptimos petiscos para satisfação das nossas barrigas, que vinham bem encolhidas depois da ascensão.

Ao fim da tarde, uns vão para as termas e outros vão passear pela vila. A princípio, era para ir para as termas, mas depois de ver a quantidade de pessoas que lá estavam para entrar, mudo de ideias. Baños é muito conhecida pelas suas termas de águas quentes devido à proximidade do vulcão. Prefiro ir dar um passeio a pé. Não durmo há mais de um dia mas sinto-me bem.
Como vamos passar mais um dia aqui, eu e Anders decidimos alugar umas bicicletas e dar um passeio.
Hoje Anders está um pouco irritado. Ontem, ao fim do dia, integrou uma excursão até a um miradouro para ver o vulcão em actividade, mas para seu azar o céu estava nublado. O pior é que a excursão levava apenas adolescentes e eles iam ficar lá por cima mais umas horas numa “party ”onde todos acabaram bêbados. Não imagino o “frete” que ele deve ter apanhado.
Alugamos umas bicicletas porque queremos descer o vale do rio Pastaza. Este rio está ladeado de verdejantes montes com muitas quedas de águas. Andamos alguns quilómetros e chegamos a um cruzamento que vai ter a um miradouro. Anders quer lá ir, está com a excursão “atravessada na garganta”. Advirto-o que para lá chegar tem de subir cerca de 1500 metros de desnível (o equivalente a ir da Covilhã à Torre, na Serra da Estrela). Se ele ontem já se encontrava menos bem, na subida ao Cotopaxi, e amanhã iríamos tentar subir o Chimborazo, que é bem mais difícil, seria uma enorme asneira, tendo em conta que ele não está muito habituado a andar de bicicleta.
Eu, que me sinto bem fisicamente, e o desporto para o qual tenho mais apetência física é andar de bicicleta, não me vou meter em grandes esforços para me poupar. Consigo demovê-lo desta ideia e lá vamos vale abaixo.
Cascada de Ulba e Cascada el Silencio são algumas das muitas cascatas que vamos passando. O trajecto é feito
maioritariamente por estrada, mas de vez em quando aparecem uns caminhos próprios para bicicleta. Na realidade, encontramos nesta zona imensos turistas a andar de bicicleta.
As vistas são de uma beleza indescritível especialmente enriquecidas pelo recorte do enorme rio Pastaza.
Ao longe começamos a vislumbrar a enorme Cascada Manto de la Novia com cerca de 100 metros de altura. Continuamos pelo vale até chegar finalmente àquela que é a maior de todas elas, a Cascada Pallon del Diablo. A queda de água é enorme e precipita-se num turbilhão espectacular. Descemos até à base da cascata e ficamos todos molhados, mas depois resolvemos ir até ao topo. Aqui encontra-se uma mini reserva ecológica, e como recepcionista está lá um tipo todo “pedrado”, que depois de um grande discurso lá nos deixa ir ver a reserva.
Pedalamos cerca de 40 km, sendo que uma grande parte do percurso é
a descer. Que me perdoem os meus amigos do pedal, do Núcleo Duro e o pessoal da Seita, pois sei que os vou aturar por isto que vou dizer, ou seja, para regressar optámos por apanhar boleia numa carrinha. Afinal de contas era um dia de relaxe.
À noite encontramo-nos ao jantar para contar as peripécias do dia. Carlos e Teresa foram numa excursão ao Amazonas e Sílvia alugou uma moto para ir passear também à floresta do Amazonas. Mais uma vez, o jantar é divinal. Aliás, tenho comido sempre muito bem, à excepção do restaurante em La Mitad del Mundo onde me senti um pouco mal. Sílvia, que é médica nutricionista, também o afirma. A comida é muito boa e o mais
importante é que vem nas porções correctas.

Estamos de novo na carrinha a caminho do Chimborazo que fica bem mais a Sul. As primeiras três horas são percorridas em asfalto muito esburacado. Mais uma vez, a paisagem é muito bonita, predominando por aqui campos de cultivo, os solos são muito férteis, embora nos últimos tempos, tem-se assistido ao abandono do espaço rural. Muitos emigram para as cidades e outros para o sul de Espanha, principalmente para a zona Almeria, onde existe um mar de estufas. Pelo que tenho visto, aqui a vida pode ser difícil, mas na cidade não será muito melhor, pois os “bairros da lata” de Quito são miseráveis. Também consta que em Espanha são muito explorados.
Pouco a pouco vamos estando mais altos, Baños fica a 1800 metros e o nosso destino é a 4800 metros. Na opinião de Carlos não devíamos ter dormido a tão baixa altitude, e eu concordo com ele.
Aos 4000 metros entramos no Parque Chimborazo. A partir daqui o asfalto dá lugar a um caminho de terra e a
mais uma hora dentro da carrinha. A sensação que tenho é que deve ser praticamente igual a estar dentro de uma máquina de lavar.
Tal como no Cotopaxi, tudo é muito árido. Vejo alguns lamas e questiono-me do que é que eles se alimentam.
Finalmente chegamos e o tempo está bom. Comemos no Refúgio Hermanos Carrel e preparamos o equipamento. Como estamos a 4800 metros, temos de fazer mais 200 metros de desnível até ao Refúgio Whymper. Durante a subida, passo por uma rapariga que vinha carregada com gelo. Desde a chegada dos espanhóis que os nativos sobem às montanhas para buscar gelo. Ainda hoje se mantém esta tradição, só que para beber um refresco com gelo do glaciar, paga-se e bem. Eu não terei esse problema, basta-me levar um sumo que durante a noite vai congelar facilmente.

A meio da subida, encontramos um memorial aos que morreram nesta montanha. Em redor deste monumento são já muitas as lápides com nomes de pessoas que faleceram, quase todas elas, devido às avalanches.
Somos muito pequenos e insignificantes diante da imponência da montanha e é muito importante não esquecer que o mínimo deslize pode ser fatal.
Voltamos a nos encontrar todos no refúgio, desta vez tínhamos mais uma simpática família japonesa, os pais e um filho.
O grupo é muito animado e estamos todos muito bem-dispostos especialmente porque o tempo vai estar bom.
O sempre bem-disposto Carlos não está muito optimista, sente-se um pouco cansado, Teresa sente-se bem, também Anders se sente bem e diz que desta vez não irá passar mal. Silvia
está um pouco cansada e com o tornozelo inchado e tem dificuldade em andar. Apesar disso quer subir, e para tal toma anti-inflamatórios, só que toma demais e fica um pouco eufórica, talvez a altitude também tenha influenciado um pouco. Estou a ver que os médicos a auto medicarem-se são um problema! Falo com Fredy para a tentar acalmar um pouco. Os guias são muito bons, mas por vezes têm alguma falta de sensibilidade – em certos casos pequenos problemas podem tornarem-se em grandes problemas.
O resto do pessoal, Manoel, Andreia, Teresa, Alberto e os japoneses, com uns nomes que nunca entendi, estão sempre bem-dispostos.
O pôr-do-sol sobre as montanhas e as nuvens, proporcionam-me momentos únicos, que jamais esquecerei.
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Entretanto, conheço um bombeiro equatoriano que está num acampamento aqui perto em treinos de alta montanha. A primeira pergunta que me faz é se Portugal continua a arder. Fico estupefacto com a pergunta mas não deixa de ser uma pergunta lógica. A razão desta questão é porque ele já esteve em Portugal, não como bombeiro mas como músico. Era um daqueles músicos que andam no Verão, de cidade em cidade, com os trajes típicos do Equador a tocar para uma plateia, que até costuma ser numerosa, mas que depois não compra nada, nem um simples CD.
Vamos descansar pelas 18h. Mais uma vez, estou demasiado eléctrico para dormir. Para ajudar, algumas rajadas de vento assolam o refúgio fazendo estremecer o telhado de zinco. Vem-me à memória o mau tempo de Cotopaxi.
Começamos a caminhar. É meia-noite e o tempo não podia estar melhor, o céu está estrelado, a lua cheia e o mais importante é que não está vento.
Mas nem tudo corre bem. Franklin teve um acidente ontem e está internado no hospital, embora pareça que não é muito grave.
Eu vou com Juan e Anders. Como acho que o ritmo está um pouco forte, deixo-me ficar um pouco para trás.
Faço isto para que o guia diminua o ritmo e também para que Anders não se canse muito logo no princípio. À frente vai Alberto e o guia Edgar, a Tereda desta vez não vai, ficou no refúgio. De seguida os japoneses, depois Fredy, Teresa, Carlos e Sílvia. Manoel e Andreia não os vejo, muito provavelmente vão mais à frente.
Passa cerca de uma hora desde que partimos. Carlos desiste e desce, diz-me que está cansado.
Está uma noite fabulosa apesar dos – 12ºC. O luar sobre o gelo milenar faz reflectir o brilho dos cristais, um cenário maravilhoso.
Iniciamos a subida pelo glaciar até chegarmos à crista. As cascatas de gelo nos glaciares são espectaculares, chegam a ter mais de 20 metros de altura.
Desde que começamos, a média de inclinação é de cerca de 60%, com algumas partes em que nos obrigam a fazer um pouco de escalada. De vez em quando paramos para descansar. Vezes de mais para mim.
Aos 5600 metros Sílvia dá um grito de desespero, não pode continuar, está com muitas dores no tornozelo e
para ela se queixar é porque o caso é sério. Teresa está em dúvida se continua ou não, mas decide descer. O guia Juan leva-as para baixo e nós continuamos com o Fredy.
Os japoneses vêm lá atrás muito lentamente. Por outro lado, Edgar, Alberto, Manoel e Andreia vão bem mais à frente. Apesar ser de noite, existe bastante luminosidade devido à lua cheia.
O passo aqui é muito lento pois já estamos a cerca de 5800 metros. Durante a subida o silêncio é constante e só se ouvem os cranpons a enterrarem-se no gelo. Silvia disse-me que, nos momentos mais difíceis da montanha, faz contas de matemática, mas eu tenho de pensar noutra estratégia porque sou péssimo a fazer contas.

Normalmente a minha mente “esvazia-se” com a dimensão da montanha e aqui mais do que nunca. Apesar de estar a fazer um esforço sobre-humano, não trocava este momento por nada.
Estamos a cerca de 5850 metros e aquilo que temia aconteceu, Anders começa a parar demasiadas vezes e a cair. Está tonto, não podemos continuar.
Tenho vontade de seguir sozinho, sinto-me bem, um sinal disso é que tenho fome e sede. A partir dos 5000 metros normalmente os órgãos do nosso organismo não recuperam e funcionam mal, tal é o desgaste. No
entanto, é muito arriscado, os outros vão bem mais à frente e eu não conseguiria nunca chegar até eles. Se tivesse aqui Franklin poderia continuar.
Mas o importante é descer bem, para depois voltar subir bem. Não se pode facilitar minimamente, a montanha não permite qualquer erro, com a altitude normalmente perdemos a lucidez, de modo a conseguir avaliar os perigos, e é assim que os acidentes acontecem.
A descida é lenta e Anders está muito cansado, por vezes temos de montar pontos de reunião para descer com mais segurança. O gelo aqui é muito duro, mais parece vidro, e mesmo os cranpons não se cravam neste gelo milenar.
Durante a descida passamos pelos japoneses, continuam a subir, de “gatas”, parecem-me muito cansados. Questiono-me se o guia não tem a noção do mau estado em que eles se encontram, mas os japoneses
normalmente são persistentes e vão até ao limite!
Finalmente o amanhecer. Nesta fase a descida é menos complicada e como tal deixo-me ficar para trás para apreciar o nascer do sol. No horizonte, vislumbro um fenómeno que não é muito frequente. O Chimborazo tem um cone perfeito e como o sol nasce por detrás da montanha, a sombra é projectada ao longo do horizonte dando a sensação de ser outra montanha. Para completar a Lua cheia está por cima da sombra do cone. Este cenário dura poucos minutos, mas seguramente nunca o esquecerei. Mais tarde falo com Manoel sobre este efeito e ele, que já caminhou por muitas montanhas, diz-me que só por duas vezes assistiu a um
a coisa assim.
Finalmente chego ao refúgio. Os que desceram já estão “enrolados” nos sacos-cama. Eu não tenho sono e sinto-me bem mas um pouco frustrado, a minha vontade era de pegar na mochila e voltar a subir. Mas o mais importante é que regressámos todos bem.
Decido dar um passeio por ali perto e depois sento-me a olhar a montanha com os olhos vidrados nos gigantescos glaciares do Chimborazo (“mulher de gelo”, em Quichua). O pico Chimborazo com 6267 metros é o ponto da Terra mais afastado do seu centro, pois ela é mais larga na altura do equador. Por outras palavras é o ponto da terra mais perto do Sol e eu estive quase lá.
Passam duas horas e vislumbro Edgar e Alberto a descerem e mais atrás Manoel e Andreia.

Conseguiram chegar ao pico, fico feliz por terem conseguido.
Faltam os japoneses, pai e filho ainda não regressaram. A mãe, que ficou no refúgio, quase que abre um buraco no chão de tanto andar de um lado para o outro. Embora a comunicação não seja muito fácil, dei-lhe a entender que eles estavam bem, mas a realidade não era essa e eu tinha-a presenciado.
Mais uma hora e vejo-os ao longe na crista, vêm muito, mas muito devagar. Entretanto o vento e as nuvens voltam. Mais duas horas e finalmente chegam. Não conseguiram chegar ao cume. Estão em muito mau estado, têm as faces um pouco queimadas do frio, mas o pior é que um deles, segundo o guia, deve ter um edema pulmonar. No entanto, estão a sorrir.
Está na hora de partirmos e despedimo-nos do casal de Santander, do Manoel e Andreia. Estes fazem-me uma proposta de voltar ao Cotopaxi para voltar a tentar subir. Estou renitente, ainda tenho mais alguns dias, posso ir lá tentar, mas também posso voltar a apanhar o mesmo mau tempo. É um risco ir para Cotopaxi e, devido ao mau tempo, passar os restantes dias que estou no Equador num refúgio (depois já em Portugal comunico com Manoel e fico a saber que fizeram o cume com condições meteorológicas muito boas).
Decido não ir, ainda quero ir para a parte oriental para conhecer um pouco do Amazonas e também dos
nativos.
Ter estado sempre ligado a este grupo foi realmente muito bom, mas teve, no entanto, uma desvantagem do meu ponto de vista: interajo muito menos com os locais, o que para mim, de férias, é um complemento essencial. Entre nós fica a promessa de nos encontrarmos numa montanha qualquer em alguma parte do mundo.
Felizmente é a última vez que ando nesta carrinha. Fredy tem o pé muito, mas muito pesado a conduzir.
A carrinha deixa-me no terminal de autocarros de Ambato. A partir daqui vou andar sozinho, pois Anders parte daqui a dois dias, Carlos e Teresa partem amanhã, Sílvia vai para a Colômbia uma semana e eu parto à aventura para o Amazonas.

De Ambato até Baños é cerca de uma hora. Em Banõs penso nos petiscos de Navarrete, da Hospedage Higuerón, mas quando tinha descido o vale de bicicleta tinha avistado umas cabanas, junto à Cascada Manto de la Novia. Na altura imaginei que aquele local devia ser maravilhoso para descansar. De Banõs até à cascata
é mais meia hora. De bicicleta não me tinha apercebido o quanto a estrada é perigosa, por meio de túneis e precipícios o autocarro desce a toda velocidade.
No miradouro para a cascata aproveito para comer uma iguaria do Equador, que gosto muito e que nunca tinha experimentado noutro país, banana assada com queijo no meio. Uma delícia!
Não deixa de ser impressionante estar esta tarde a cerca de 1000 metros de altitude, a uma temperatura de 25ºC, quando esta madrugada tinha estado a 5850 metros e a temperatura devia rondar os -15ºC.
Para chegar às cabanas tenho de descer um trilho com cerca de 100 metros de desnível e depois atravessar a enorme ponte pedonal suspensa por cabos sobre o rio Pastaza. Apesar de ser um mero afluente do Amazonas,
aqui já é bem maior que o rio Tejo.
Marcelo Benitez é proprietário deste local e já aqui habita há muitos anos. Transformou este local no seu “Éden”, como ele diz. E tem toda a razão, este local é maravilhoso e tudo está muito bem cuidado. Marcelo é artesão e tudo o que faz, faz com pormenor, tudo é estudado e detalhado.
O forte rugido da água a precipitar-se de uma altura de 100 metros não me deixa indiferente. Acho que nunca tinha estado junto de uma queda de água com esta dimensão, e apesar de me encontrar a cerca de 50 metros de distância, chegam-me por vezes gotas de água provenientes da cascata. Aqui aproveito para explorar os trilhos em redor desta maravilha da natureza.
São oito da noite, já não durmo há cerca de quarenta horas. Depois de um belo jantar vou-me deitar.

Acordo sobressaltado, sinto a cabana a abanar e os cães da casa a ladrarem e mais ruídos estranhos. Só dormi meia hora, devo ter tido um pesadelo, volto a adormecer.
Passadas dez retemperadoras horas de sono, acordo e vou tomar o pequeno-almoço. Quando me sento a primeira pergunta da senhora é: Sentiste? E eu respondo: o quê? Tinha havido um tremor de terra, que foi forte mas de curta duração e os estragos foram felizmente muito poucos. Disseram-me também que se assustaram e saíram da casa a correr. Bem que podia ter ficado soterrado que, com o cansaço que tinha, não ia dar por nada. Lembro que esta zona fica somente a 50km do activo vulcão Tungurahua.
Arrumo as coisas e despeço-me do “Éden” e retomo a ponte e depois o trilho, só que desta vez é a subir. Não espero muito e já estou no autocarro a caminho de Puyo, que é conhecido por ser a porta de entrada da floresta amazónica. Durante a descida, vejo que houve alguns desmoronamentos de terras, provavelmente devido ao tremor de terra. Esta estrada está muitas vezes cortada devido a aluimentos de terras, por causa das fortes chuvadas, mas neste caso não tinha chovido.

Ao passar de autocarro, vejo que a cidade de Puyo é pouco atractiva e isso não me agrada nada. Saio do autocarro e não passa mais de cinco minutos e já estou dentro de outro autocarro com destino a Tena. Decidi não ficar mais tempo por ali.
Finalmente encontro um motorista de autocarro que anda devagar, ainda bem porque muitas vezes a estrada por onde passa está em mau estado. As vistas são soberbas, de um lado a floresta amazónica e do outro a cordilheira dos Andes.
Três horas depois chego a Tena, parece-me bem mais simpática do que Puyo.
Tena é conhecida por ser a embaixadora da selva, aqui ligam-se dois grandes rios, o Tena e o Pano. A cerca de 5 km está outro grande rio, o Jatunyacu. Estes três convergem a cerca de 6 km mais a jusante, dando origem ao rio Napo. Apesar da extensa dimensão, o rio Napo não deixa de ser igualmente um afluente do Amazonas.
Com tantos rios, Tena é um dos destinos predilectos para o rafting em toda a América do Sul, e eu pretendo fazer um ou dois.
Durante a tarde, dou um passeio no Parque Amazonas, que alberga inúmeras espécies de plantas e animais, e um deles até me prega um grande susto. Enquanto observava os tucanos e os papagaios, um macaco-aranha, que andava ali por perto, aproximou-se de mim. Só que aproximou-se demasiado e quando dou um pass
o para trás, piso-o, e o macaco dá um grito muito forte, pregando-me um susto de morte. “Raio do macaco”- pensei eu. Neste parque predominam os macacos, os tucanos, os papagaios, os javalis e as cobras bem grandes.
E acabo o dia numa esplanada em frente ao rio a comer burritos e ouvir música colombiana.
Estou à espera de boleia, pois ontem tinha conseguido contactar uma agência de raftings, que me iria levar para o rio Jatunyacu, O rio é de classe 3+ (escala de 0 a 5). O objectivo deste rafting é conhecer melhor a flora local, que de outra forma seria impossível de ver devido à densidade da floresta. Para além do guia do barco, tenho como companhia três americanos e dois equatorianos.
A descida do rio é tranquila, de vez em quando interrompida pelos rápidos e por uns bons mergulhos. As
vistas são fabulosas e a vegetação é mais uma vez luxuriante. Nas margens íngremes do rio, predominam as orquídeas. Ao longe, encontra-se a cordilheira dos Andes e no lado oposto estão umas nuvens de formação vertical sob o Amazonas, fenómeno que nunca vi igual em Portugal.
A meio da descida paramos para um almoço leve. À nossa espera estava um bando de miúdos brincalhões, que subitamente apareceram do meio da floresta. Só quando estava a acabar de comer é que me apercebi do motivo da sua presença. Estão à espera que acabássemos a refeição para depois comerem os restos. Fico logo sem vontade de acabar de comer, provavelmente já teria comido mais agora do que estes miúdos vão comer durante todo o dia. Só neste grupo estão pelo menos quatro irmãos, entre os 5 e 10 anos, que partilham ordeiramente a comida.
Deixamos os miúdos, que agora brincam nas margens do rio. Pouco ou nada têm, mas aparentam ser
felizes, vivem do que a floresta dá e pouco mais. O contraste entre estas crianças e as ocidentais é abismal. Têm tudo, tudo querem e pouco ou nada dão.
A descida do rio demora cerca de seis horas e acaba na pacata aldeia de Puerto Napo.
Regresso a Tena, e passo a resto da tarde numa esplanada a discutir sobre todo o tipo de coisas com os locais. Noto que aqui a política é, de certa forma, um pouco tabu.
À noite reparo que tenho um derrame no olho, talvez tenha sido uma bactéria que apanhei no rio. No dia seguinte tinha planeado ir fazer uma cayoning numa garganta de um rio perto de Misahualli, mas com olho neste estado não arrisco a meter-me dentro de água.
Estou no terminal de autocarros e ainda não decidi para onde vou. Entretanto observo a azáfama do mercado ali ao lado e decido ir até Misahualli. Demoro cerca de meia hora. Esta pequena vila pouco tem para ver, a
única coisa que se destaca são os macacos, que andam por todo o lado. A partir desta vila deixa de se ver estrada, apenas alguns caminhos em muito mau estado. Aqui o principal meio de transporte é o barco. Depois conversar com alguns locais, fico a saber onde existem alguns refúgios de vida animal e algumas aldeias no meio do Amazonas.
Antes de entrar no barco, negoceio o preço com o Lucas. Aqui o rio é já calmo e bastante largo.
Apesar das barcaças serem muito estreitas, são seguras. Lucas vai levar-me até um refúgio de vida animal. Para lá chegar demora-se cerca de uma hora. É um passeio magnífico, a floresta aqui é muito densa, e de vez em quando aparecem algumas clareiras com cabanas e crianças índias a brincar na água. Também daqui se
vêem algumas pessoas em busca de ouro nas margens do rio.
Enquanto Lucas fica à minha espera, vou visitar o refúgio, que se encontra bem dentro da floresta Amazónica. Fazem aqui voluntariado pessoas de todo o mundo. A minha guia é uma americana, que me leva a ver alguns animais recuperados a contrabandistas, animais que viviam em casa de pessoas (mas que depois de crescidos, deixaram de ser bonitos), animais feridos, etc. Muitos destes animais não vão conseguir voltar à vida selvagem, estão demasiadamente domesticados. Como de costume, macacos não faltam e, pela primeira vez, tenho a oportunidade de estar perto de uma gigante anaconda.

Para minha surpresa, encontro aqui o casal de Santander.
Volto para o barco e Lucas vai levar-me até uma pequena aldeia para lá ficar. Continuamos a descer o rio para depois entrarmos num dos seus muitos braços.
O rio mais a jusante não é muito aconselhado. Penetrar na selva e estar praticamente junto da Colômbia e do Peru, traz-me uma certa angústia e faz-me pensar que há muitas probabilidades de poder vir a ter contacto com algumas situações menos agradáveis, nomeadamente a malária, paludismo, piranhas, movimentações das FARC e droga.
As fronteiras entre o Equador, Peru e a Colômbia ainda não estão bem definidas e esta indefinição tem dado origem a alguns conflitos armados. O último foi há cerca de 10 anos. Esta zona da Amazónia é muito rica em petróleo e madeira, e como tal é disputada por estes três países. Os recursos deste “pulmão do mundo” também aqui têm vindo a ser reduzidos, devido à sua exploração intensiva.

video
Provavelmente a paz só vai regressar a este local quando deixar de haver recursos naturais e depois disso aos líderes destes países não lhes vai interessar mais esta pobre terra, que nunca foi deles mas dos Índios e dos animais que sempre cá viveram e que nunca tiveram fronteiras.
Chego a Ahuano. Aqui recomendam-me a casa da senhora Doña Maruja. Na realidade, o contacto com a família não é muito fácil, falam pouco e são bastante fechados.
Nesta zona do Equador continua a predominar o Quichua. Desta língua tento saber o básico, mas mesmo assim
é muito difícil: Napaykullayki – olá, Allichua – por favor, Yusulipayki – Obrigado, Ari – sim, Mana – não, Mikíut – comida.
O resto da tarde é passado na varanda da modesta casa a olhar para o rio. Desde que cheguei é a primeira vez que páro um pouco. Deixo-me envolver por este lugar tranquilo e o meu cérebro “esvazia-se” completamente com esta paz. Amanhã já tenho de regressar a Quito. Mas enquanto “esvazio” o cérebro, os mosquitos fazem-me um ataque cerrado, e o repelente que supostamente seria “super forte”, mais parece um adoçante para os insectos.
Despeço-me da família e apanho boleia num barco até Misahualli. Aqui apanho o autocarro até Tena, para depois apanhar outro que me levará até Quito.

É uma viagem de cerca cinco horas. Tenho a sorte de ter a companhia de uma simpática senhora, que é funcionária do Estado, e esteve durante alguns dias a fazer uma recolha de dados sobre algumas comunidades indígenas.
A viagem é longa mas a paisagem é deslumbrante. A estrada inicialmente é boa mas a partir de uma certa zona, é só terra. Contudo, a velocidade do autocarro é a mesma. O caminho passa no meio de dois vulcões: o Antisana, 5753 metros, e o Cayambe, 5790 metros. O desnível que o autocarro faz é impressionante, ou seja, sai de Tena a 518 metros, passa num colo a cerca de 3800 metros para depois descer para Quito.
Para o oriente do Equador só existem duas estradas de acesso: a que fiz há alguns dias atrás, e esta. Estas estradas têm alguns postos de controlo devido ao tráfico de animais, droga e
madeira. Como tal, nestes postos todas as pessoas são revistadas.
Estou de novo na confusão de Quito, chego em hora de ponta e andar de autocarro a esta altura do dia é sentir um aperto descomunal. De vez em quando sinto a minha mochila a ser puxada, tento localizar a mão oportunista, mas não consigo. Acho melhor andar com os bastões e a picareta do gelo na mão para dissuadir eventuais carteiristas.
Como tenho algumas horas ainda, vou fazer um passeio ao mercado de artesanato para gastar os últimos dólares.
No caminho para o aeroporto apanho um táxi, com um condutor de cerca 50 anos totalmente alucinado. Com a boina de lado, metia frequentemente a cabeça de fora do carro a chamar a quem lhe impedisse a progressão todo o tipo de impropérios


Esta viagem é um pequeno relato da minha experiência no Equador. No entanto não relata as cores, os cheiros, as expressões, as alegrias, as tristezas, a paz, enfim quase todos os sentimentos. Esses deixo-os para os que lerem esta crónica possam imaginar, sonhar e viajar.

Curiosidades.

· Durante todas as escalas tive apenas um atraso de quinze minutos em Caracas.
· Dentro do Aeroporto de Caracas, a temperatura era de cerca de 16 graus, no exterior a temperatura era de cerca de 30 graus com uma humidade de quase 100%. Sendo a Venezuela um local predilecto para os veraneantes de chinelos e calções, era vê-los todos encolhidos e desejosos de saírem dali.
· Quem diz que os alentejanos são lentos é porque não conhece os funcionários do aeroporto de Caracas. Antes de mexerem uma mão têm de pedir licença à outra
· De todos os viajantes com quem falei, a opinião foi unânime: os equatorianos são os piores condutores.
· Para contrapôr, só ouvi uma vez uma sirene de uma ambulância em Quito, provavelmente até são bons condutores mas não deixam de ser
malucos e de terem tendências suicidas.
· No Equador, à mesa servem-se primeiro os homens. Fez-se justiça (sei que vou ouvir por fazer este comentário)!
· Frase mais escutada no Equador: “No Equador tudo é possível”.
· O custo dos transportes é em média de 1 dólar por hora.
· Custa também um dólar lavar 1kg de roupa nas lavandarias. Quase que compensa enviar por correio expresso a roupa para o Equador para ser lavada.
· Fui revistado sete vezes: seis nos aeroportos e uma num autocarro, no meio da floresta no Equador.
· Para não remexerem muito a mala, deixei a roupa muito fedorenta e suja na parte de cima da mochila. Resulta!
· A pasta de dentes, o champô e os sabonetes para a roupa e corpo acabaram na noite anterior ao meu regresso.
· Quando entrei no aeroporto de Quito para regressar, restavam-me apenas 15 cêntimos nos bolsos.
· No regresso, muito surpreendentemente, estive apenas cinco minutos à espera da minha mala no aeroporto da Portela. Deve ter sido batido o recorde de rapidez no nosso aeroporto!


Para finalizar, um espectáculo, que eu não contava e que seguramente não voltarei a ter oportunidade de ver tão cedo: o nascer do Sol, quando o avião se preparava para aterrar em Lisboa.
É bom voltar a casa....
.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

CABO VERDE

MORABEZA (Crioulo): a arte de bem receber.
É a melhor definição que posso encontrar para Cabo Verde




Este texto foi escrito, enquanto viajava por algumas ilhas, relata alguns episódios, vivências e pequenas reflexões, sobretudo da ilha de Santo Antão, onde passei a maior parte dos dias.
Quanto a tudo o resto, deixo à vossa imaginação, para poderem sonhar com um local onde o tempo, a bondade, a palavra, o sorriso e a simplicidade da vida prevalece.



1º dia.
Entrar no Aeroporto de Lisboa é sinónimo de viagem e de férias. E como tal, estou eufórico e um pouco ansioso, o que me leva a ir algumas vezes à casa de banho. Na verdade, bem que não me importava de ir muitas mais. Na sala de embarque, vejo a bicicleta no carro de transporte de malas, em cima de um caixão funerário! Felizmente que não sou supersticioso, mas…
Ao entrar no avião, sinto que já estou noutro continente, onde já se fala algum Crioulo. Com o decorrer da viagem e a aproximação a Cabo Verde, o português vai desaparecendo. Nota-se que a ansiedade das pessoas em chegar é enorme, muitos já não vêem a família e amigos há muito tempo.
Finalmente chego ao Aeroporto da Cidade da Praia. O clima não é aquele de que me tinham falado, ou seja, quente e seco. É antes muito húmido e sinto logo a roupa a colar ao corpo. Apesar de ainda agora ter começado a estação húmida, raramente chove. Para meu desespero, vejo a bicla a sair a voar do avião. Felizmente uma alma caridosa evita que se estatele no chão, evitando danos maiores, pois seria terrível ter o meu meio de transporte estragado. Finalmente tenho-a, monto-a, vou levantar dinheiro. Sinto que estou a ser observado, e ainda bem que estou, porque se não fosse uma senhora a reparar, o cartão tinha ficado na caixa multibanco.
Saio do aeroporto a pedalar com destino à Cidade da Praia e pedalo que nem um doido. Sinto-me mesmo feliz. Ao descer para a cidade, passo por uma acelera. O branco dos olhos daquela massa negra sobressai como faróis, mostrando o espanto por estar a ultrapassá-la.
A baía da Praia é bonita. Como estamos no fim do dia, vê-se muita gente a fazer exercício na marginal. Vou à procura de dormida, na parte velha, que tem o nome de Plateau. Aqui é onde se localizam a maior parte dos serviços de Cabo Verde. Os edifícios foram construídos na altura da colonização, apresentando uma arquitectura típica portuguesa. Encontro sítio onde ficar. Apercebo-me que os preços são altos, iguais ou mais altos do que em Portugal. Na residencial, avisam-me que é perigoso sair à noite e que é melhor apanhar um táxi para ir jantar. Vou seguir o conselho. Por estar junto ao mercado, a agitação é muito grande. Na realidade, com a chegada da noite, a iluminação é muito escassa e torna-se perigoso.
No restaurante recomendado, enquanto janto, juntam-se a mim quatro pessoas, que se sentam na minha mesa, a falar crioulo. Acho piada à descontracção que têm, sem pedir licença, mas será que é preciso pedir licença? Afinal estou noutro país com uma cultura totalmente diferente. Provavelmente sou eu que já estou habituado a demasiada etiqueta e protocolo. No entanto, tenho a sensação que me querem dali para fora. Vou acabar de comer o excelente peixe grelhado e vou-lhes fazer a vontade.
Apanho um táxi para regressar. Dino, o taxista, diz-me também que não é seguro andar por estas bandas, principalmente se for a pé e se se for loiro! O Dino é porreiro e fico um pouco à conversa com ele. Estou a morrer de frio, tem o ar condicionado no máximo e faz questão de o mostrar. Saio do carro e tenho a sensação de ter a cabeça a rebentar, devido há diferença de temperatura. Vou descansar, que amanhã o dia promete.

2º dia.
Acordo bem cedo, com o calor é impossível ficar muito tempo na cama e vou dar um passeio pelo Plateau antes do pequeno-almoço. Tenho oportunidade de ver o nascer do sol na baía. Volto para a pensão. A confusão no mercado é enorme, aparece gente de todo o lado a vender tudo o que se possa imaginar.
Finalmente a pedalar… Os arredores da cidade fazem-me parecer o pior dos bairros de Lisboa um resort de luxo. Porcos e cabras comem nos esgotos todo tipo de lixo (ainda bem que tinha comido peixe no dia anterior). O cheiro é horrível. Como é natural, toda a gente repara em mim, porque certamente não é muito frequente andarem por ali ciclistas vestidos de licra. A dada altura, vejo que há algum entusiasmo à minha passagem, mas apercebo-me que o entusiasmo não é apenas por mim, mas por um velhote com uma pasteleira, que me está a tentar ultrapassar. O velhote já espuma pela boca; abrando um pouco para o deixar passar e ter o seu momento de glória.
Por fim, fora da cidade e sempre a subir, aproximo-me da montanha. Como não tinha muito tempo, decidi fazer uma volta circular, não passando pelos sítios mais conhecidos como o Tarrafal, que foi em tempos um campo de concentração do regime ditatorial português, e pela Cidade Velha, que foi a primeira cidade fundada em África pelos Portugueses. Dizem que a cidade é um museu ao ar livre.
O interior da ilha é muito montanhoso, fazendo-me lembrar as Dalomites nos Alpes, com os seus picos. A paisagem é um pouco desértica, interrompida por vales profundos com vegetação luxuriante. Aqui sinto, e de que maneira, o efeito da humidade. Nas descidas, ando bastante rápido e ultrapasso, por vezes, as carrinhas-táxi, sempre a abarrotarem de gente e a circularem a alta velocidade. Nas curvas, as pessoas metem as cabeças de fora da janela para fazerem contra peso, e metem-nas mais ainda quando vão atrás de mim. Só oiço os pneus a chiar e as pessoas a berrarem, é um delírio!!!!.
Passo pelas aldeias mais importantes, como São Domingos, Picos e Assomada. Quando aqui chego já estou bastante cansado, devido ao sobe e desce e também à humidade. Apercebo-me que tenho de voltar rapidamente para apanhar o avião. Para regressar, saio do alcatrão e entro no paralelo, para fazer menos desnível, mas apanho mais calor e um piso bastante duro. Passo por pequenas aldeias com extensas plantações de bananas, papaieiras, coqueiros, fruta-pão, etc. Encontro constantemente crianças. Aparecem em tudo o que é sítio. A alguns, estico a mão e digo: “Dá cá mais cinco”; outros sorriem, e outros ainda usam o seu melhor inglês,e dizem: “Money, Money”. Como eu não lhes dou nada, ameaçam atirar-me pedras (efeito nocivo da famigerada civilização). Já não basta estar cansado e ainda tenho que fazer alguns sprints!!!
Chego ao aeroporto a tempo de apanhar o avião para São Vicente. Estou todo “empenado”. Não imagino o desnível que tenha feito, mas pelo mapa vejo que andei cerca de 80km. Sinto que perdi demasiada água e que não a consegui repor. Os toalhetes aqui são providenciais para tomar banho, bem como um saco para isolar a roupa mal cheirosa. Se os alquimistas descobrissem uma essência tão forte como o mau cheiro da roupa, descobririam o filão das essências para perfumes. Tenho pena de me ir embora já de Santiago. Esta ilha tem imensas coisas para ver e a sua história é muito rica. Enfim, o tempo é que não estica!!!
Chego a São Vicente. Vejo a bicicleta a sair do pequeno avião e digo-lhes para terem cuidado. Na realidade, têm demasiado cuidado com a bicicleta e pouca atenção com as outras malas, atirando-as para o chão para me darem a bicicleta. Uma das malas abre-se e espalha-se pelo chão um pote com pó de proteínas de um culturista cabo-verdiano. Instala-se a confusão e começa uma discussão pegada. Saio de fininho para que a coisa não sobre para mim.
Apanho um táxi porque já é de noite. Micão é o apelido do taxista. Micão oferece-se para me levar a conhecer a ilha e também para me levar aos sítios nocturnos mais concorridos. Quando lhe digo que venho de Santiago, começa logo a dizer mal das pessoas de lá. Apercebo-me assim da rivalidade existente entre ilhas.
Chego à cidade de Mindelo e encontro um local barato para dormir. Estou muito cansado, o dia foi muito comprido, e amanhã provavelmente será mais ainda.

3º dia.
Acordo, e ainda é de noite. Consta que o ferry parte sempre mais cedo, e de facto é verdade! Dez para as oito… e parte. Nem tive tempo para tomar o pequeno-almoço.
A viagem é tranquila. Demora cerca de uma hora. Para trás, fica São Vicente, e para a frente, vê-se a silhueta da Ilha de Santo Antão, apercebendo-me do quanto ela é montanhosa.
Quando chego ao porto de Porto Novo, a confusão, mais uma vez, é enorme. Este é o principal porto da ilha, e é por aqui que entra todo o tipo de bens e alimentos para subsistência dos seus habitantes.
Aqui abasteço-me com o essencial para o dia, avisto uma placa com o destino para onde pretendo ir e fico surpreendido: “Tarrafal de Monte Trigo - 20 kms”. Olho para o mapa e vejo que nem a direito tem esta distância! Pelo que me dá a entender são cerca de 50 km, com uma ida aos 1500 m de altitude.
Começo a pedalar, o calor é imenso e o piso é em paralelo. Aliás, não existe alcatrão nesta ilha. A paisagem é desértica e vulcânica, por vezes, com dunas de areia preta, e também com gargantas escavadas, provocadas pelas enxurradas de água e lama. Depois de ter feito 10 kms, começo a subir. Quando termina o empedrado, começam os caminhos em mau estado. O calor continua insuportável e para ajudar a humidade é terrível. Subo, subo… o tempo muda e começa a chuviscar. Entretanto, uma névoa começa a envolver-me, não me deixando ver nada. O terreno começa a ficar algo empapado e as rodas dão-me a sensação de pesarem toneladas. Sou obrigado a desmontar, algumas vezes, devido à lama que se acumula entre os travões e os pneus. Durante muito tempo, sou eu e a bicicleta. O silêncio é absoluto. Passam-me mil e uma coisa pela cabeça e remeto-me aos meus pensamentos. Não tenho a noção de há quanto tempo estou a andar com estas condições, pois não tenho relógio nem ciclómetro. Contudo, apesar da chuvinha, a temperatura é agradável.
Oiço vozes, e, junto ao caminho, encontro umas pessoas que ficam incrédulas por verem um ciclista, ainda mais nestas condições. Pergunto-lhes quanto falta para chegar ao topo. Respondem-me que cerca de meia hora e comentam, alegres, que é a primeira chuva do ano. Fico feliz por eles. Por ser filho de agricultor, sei o quanto este liquido é precioso.
Mais um ou dois kms, vejo uma casa com alguns miúdos com os olhos esbugalhados a olharem para mim. Volto a perguntar quanto tempo falta para o topo e respondem: “Algumas horas”. Percebo que a noção de distância para estas pessoas é muito relativa. Como não vejo nada, não me consigo localizar, ainda que tenha o mapa. Todavia, começo a sentir o vento a vir de várias direcções, sinal que estava a chegar a um colo. Subitamente o tempo levanta e fica um calor abrasador, mas mais impressionante do que isso, é ter uma cratera enorme à minha frente. Contorno-a e paro para a admirar durante algum tempo. Embora não haja qualquer tipo de vegetação, toda a paisagem envolvente é lindíssima.
Estou quase sem água e comida, e também me apercebo que o tempo pode mudar a qualquer instante. Decido descer. A descida é muito rápida, demasiado rápida… Caio, mas não vale de muito, continuo a descer muito depressa. Avisto bem no fundo de um vale o meu destino. O caminho torna-se muito pedregoso, um massacre para o meu corpo, paro algumas vezes para aliviar os gémeos e os pulsos. Afinal, estou a fazer uma descida com 1500 m de desnível. Termino a descida e só uma praia de areia negra me separa do meu destino. Finalmente estou em Tarrafal de Monte Trigo (Tarrafal d Mont Trig, em crioulo).
Este é o único lugar onde reservei dormida durante toda a estadia em Cabo Verde. Aqui tudo fervilha de vida, crianças por tudo o que é sítio. Ficam maravilhadas por eu ter chegado. Muitas delas nunca tinham visto um tipo como eu a chegar ali de bicla. Indicam-me o local onde vou ficar. À porta está um papel com um desenho de uma bicicleta e com o meu nome, com a seguinte mensagem:
“Hello João! If you arrived and do not see anyone, just call me - loud (“Susi, Susi !!!”). I may be working up in back or even taking a rest. If you arrived on your bicycle I won´t hear you, and no one else is here today.
Welcome to Mar Tranquilidade”.
Susi (americana) e Mark (alemão) residem aqui há já alguns anos. Conheceram-se na Alemanha, beberam umas cervejas e resolveram dar a volta ao mundo de veleiro e de bicicleta, até que chegaram a este sítio maravilhoso e decidiram ficar por aqui. Eu concordo plenamente com eles, este local é verdadeiramente fabuloso. Decido logo ficar aqui mais um dia.
Enquanto tomo banho, Leiny, a empregada, prepara-me uma sopa, e que sopa! Soube-me mesmo muito bem, depois de tanto sol, chuva, lama e pó. Vou dar um mergulho. Apesar da praia ser de areia negra a água é muito clara e o fundo marinho é belíssimo. Nesta praia está um veleiro de um Francês, que anda a dar a volta ao mundo. Nado até lá e meto conversa com ele. Diz-me que está aqui há uma semana porque é um local muito bom para fazer mergulho.
Na praia, meto-me à conversa com uns velhotes e arranjo logo uma discussão. O tema são os Espanhóis, que andam por ali com uns arrastões a levar o peixe todo. Com o calor da discussão, começam a falar muito naturalmente crioulo, e como é normal, não percebo nada.
Converso com Leiny, enquanto prepara o jantar. Diz-me que nunca saiu dali, mas é muito feliz. Gosta muito de trabalhar e gosta de ser independente. Porém, queixa-se do marido que é muito mandrião. Entretanto, a discussão dos velhotes continua…
Ao jantar, Susi faz-me companhia. É uma pessoa fabulosa, tem uns ideais e uns princípios de vida muito giros. Entretanto, aparece o Francês e bebemos um grogue para brindar.
Hoje na aldeia está tudo entusiasmado. Ao fim de muito tempo, resolvem pôr o gerador a funcionar, mas fico incrédulo com a razão pela qual tomam esta iniciativa. Está por cá um político, e em vez de barafustarem por não terem um gerador que funcione, não, esforçam-se por mostrarem que o tem, mesmo que esteja em péssimas condições. Resultado: puxam demasiado pela máquina e esta acaba por estoirar. Agora electricidade só daqui a umas semanas, meses, sabe-se lá... As pessoas, aqui, são muito boas e simples, fazem de tudo para agradar.
Infelizmente para eles, mas felizmente para mim, sem a electricidade, as pessoas tornam a reunir-se em grupos na rua à conversa e a cantar. Se houvesse electricidade nada disto sucederia, estariam em grupos a ver televisão de olhos vidrados, a absorver todo o tipo de porcarias que esta transmite. Apercebo-me o quanto a televisão pode ser agressiva para um povo tão simples.
Dou um passeio na Praia e adormeço a olhar para as estrelas. Acordo com um som de batuque… tenho que investigar…

4º dia.
Apesar de ser bem cedo, os homens já estão a discutir. Aliás, passam o dia a discutir, e pouco mais fazem, enquanto as mulheres já estão a trabalhar ou, então, surpreendentemente, algumas fazem exercício na praia. Como decido ficar por cá mais um dia, vou a pé até a Monte Trigo. Susi, que já está por cá há alguns anos, nunca foi a pé a Monte Trigo. Mesmo as pessoas da aldeia, poucas são as que lá foram a pé. Normalmente vão de barco, por isso está justificada a resposta, quando pergunto quanto tempo demora a lá chegar. Uns respondem que demora muitas horas, outros, poucas horas. Bem, o que me vale é o mapa!
Antes de entrar no trilho, passo pela aldeia e por alguns campos de cultivo. Esta zona é a única parte verde nesta metade da aldeia, devido à enorme nascente que brota no meio da rocha. Aqui a água é mais que aproveitada e reaproveitada, vale ouro. O trilho é muito exposto. Caem frequentemente pedras da montanha. Há partes em que o trilho desaparece por haver, de vez em quando, algumas avalanches. A certa altura, o trilho divide-se em dois, opto pelo de baixo. Passado algum tempo, vejo que optei pelo errado. O trilho desaparece e como o outro está por cima, começo a fazer escalada. A certa altura já não posso descer, pelo menos em segurança. A única solução é tentar continuar a subir. Para fazer este pequeno desnível demorei muito tempo. Um pequeno erro e poderia ser fatal. Aqui podem passar-se semanas sem se ver ninguém, e mesmo que aqui viesse alguém, nunca me iria ver. Finalmente, encontro um trilho. Tenho as mãos bastante polidas, pois a rocha vulcânica é muito abrasiva. O trilho continua, num sobe desce constante, até que a certa altura transforma-se numa auto-estrada! Fico surpreendido com a qualidade do trilho, todo feito com rocha vulcânica trabalhada. Nem imagino o trabalho que tenha dado a fazer! Mais alguns kms e chego a Monte Trigo, a aldeia mais isolada da ilha, e que é abastecida por barco. Esta aldeia fica mesmo por baixo do pico mais alto de Santo Antão: Topo da Coroa, com 1977m.
O meu cicerone é o Ilídio... Mete conversa comigo e mostra-me a aldeia. Ficamos na cavaqueira com mais uns amigos dele. Já tinha reparado anteriormente mas confirmo que tanto os jovens, como os mais velhos, bebem muito grogue. Susi já me tinha alertado para este grave problema. Miúdos espertos e inteligentes queimam o cérebro com imenso álcool.
Regresso a Tarrafal de Monte Trigo. Cruzo-me com o Francês do veleiro. Embora esteja por aqui há algum tempo, nunca saiu da aldeia, e como soube que eu tinha ido a Monte Trigo, decidiu ir também.
Passo por algumas praias de areia negra inacessíveis. Com o calor abrasador vinha mesmo a calhar um banho refrescante na praia. Consigo chegar a um desfiladeiro profundo e arranjo finalmente maneira de descer. Na areia são visíveis os rastos deixados pelas tartarugas, pois é a altura do ano em que elas põem os ovos. Depois de um refrescante mergulho, retorno ao trilho para regressar a Tarrafal. Ao chegar, a confusão na praia de Tarrafal é enorme. É o dia em que o barco vem entregar e levar todo o tipo de coisas e pessoas. Como não existe cais, algumas pessoas vão a nado e outras vão nuns barcos pequenos.
Quando chego a casa, a Mar Tranquilidade, tenho, como ontem, uma belíssima sopa à espera. Entretanto, no intervalo de alguns mergulhos no mar, repito a sopa mais algumas vezes. Isto sim, é que é vida! Boa gente, praias belíssimas e muita montanha… Estou no paraíso!
Mais tarde, chega um casal de Franceses, que vivem no Senegal. Trazem muito pó e muito cansaço. Contam-me que a viagem foi como tivessem vindo dentro de uma máquina de lavar.
Estou a ver que vir para aqui de bicicleta é muito mais pacífico, do que vir de carrinha. Claro que eles não concordam com a ideia, acham que sou maluco por ter vindo de bicla para este local (se calhar têm razão).
Como habitual, os velhos estão a discutir… Pergunto à Leiny qual é agora o motivo da discussão e ela responde que há um barco que deixa entrar água, e todos os dias um deles tem que tirar a água dentro dele. E a discussão é para saber quem é que hoje vai tirar a água do barco. E pronto, temos discussão para mais de duas horas. A noção de tempo é coisa que não existe por aqui, a vida passa muito lentamente em locais como este.
O pôr-do-sol aqui é divinal! E é assim que vou jantar, à luz das velas e com o casal Francês como companhia. Comemos uns verdadeiros petiscos. Vou dar um passeio pela praia e cruzo-me com alguns pescadores, que me dizem que, apesar te terem a casa a 50 metros e família, preferem dormir na praia para estarem mais perto do mar. Olho para o veleiro do Francês e reparo que não tem luz, ou seja, ele ainda não regressou e já é de noite. Vou deitar-me, que estou muito cansado. Pelo que pude ver no mapa, tinha caminhado cerca de 25 kms, e com um desnível de subida com cerca de 1300 m.
Quando me deito, olho do meu quarto para o veleiro, pela última vez, e vejo finalmente luz. Fiquei aliviado por ele ter voltado. Sei o quanto o trilho podia tornar-se perigoso.

5º dia
A minha ideia hoje é sair ainda de noite e, com ajuda de uma pequena luz, começo a pedalar. Adoro andar a pé ou de bicla à noite, os nossos sentidos ficam muito mais apurados. Mas a razão de sair de noite, desta vez, é para evitar o calor. Vou fazer uma subida com cerca de 18 kms muito dura. Mesmo às 5 da manhã, já está muito calor e a humidade é muita. Subo, subo… Na cota 500, nasce o Sol, e vejo bem lá ao fundo, pela última vez, Tarrafal de Monte Trigo. Sem dúvida, um dos locais mais fabulosos que estive até hoje. Infelizmente, parece que está em perigo de perder a sua beleza natural. Constou-me que estão a planear fazer uma estrada para depois construírem hotéis. Sei que a estrada é necessária, e que as pessoas a reclamam e têm direito a ela. Questiono-me é se aquelas pessoas estão preparadas para o que ela vai trazer!!!
Monte da Panela Quente e Queimado são alguns dos locais descritos no mapa pelos quais passo na subida. Na verdade, estes nomes não poderiam ter sido melhor escolhidos. Descrevem fielmente as características orográficas dos locais. Quanto mais subo, maior é a intensidade solar, mas em contrapartida o calor torna-se mais seco e consequentemente mais suportável. Com algumas horas já feitas de subida, é fundamental controlar a água. Vou fazer muito kms sem ver nada, apenas paisagem vulcânica. Não se vê nem uma única erva, embora apareçam cabras, muito de vez em quando! Como é que isto é possível num local tão inóspito como este?
Finalmente, chego ao planalto e deixo para trás uma subida bastante difícil. Já fiz muitas difíceis, mas esta!!! O piso aqui é rolante e rápido, ando mesmo muito rápido nesta paisagem lunática, mas tenho já pouca água. Mais uns kms e vejo uma casa com painéis solares. Interrogo-me se estou com miragens ou se estou na lua. Interrogo-me ainda mais quando me aproximo e começo a ver dois vultos brancos em cima do telhado! Vultos brancos que se tornam em duas belas raparigas. Definitivamente estou com miragens!!! Mas não, são duas raparigas, mesmo! Contudo, elas ainda estão mais espantadas do que eu. Nunca aparece por ali ninguém, e havia logo de aparecer um tipo de bicicleta. É algo completamente surreal para elas. Depois das apresentações feitas, Beta e Giorgia explicam-me a razão porque ali estão. Fazem parte de um projecto que é desenvolvido, em parceria, pelo governo local e por uma instituição agrícola da zona de Piemonte (Itália), com o objectivo de produzirem um queijo, que afirmam ser um dos melhores do mundo. Acredito que sim, mas interrogo-me que espécie de queijo poderão produzir aqui, se não existe uma erva para as cabras comerem? Elas esclarecem que não tarda muito vão chegar as chuvas, e aí sim, vai haver leite para fazer o queijo. Até lá…
Depois de alguma conversa, fotos e abastecimento de água, sigo. Estou mesmo feliz! Até agora tudo tem corrido bem, e surgem sempre situações interessantes! Continuo a pedalar, num sobe e desce ligeiro, ao longo do planalto, contornando alguns pequenos cones vulcânicos. Só desejo que nenhum deles comece a ficar mal disposto, pois consta que recentemente houve uma erupção. Começo finalmente a descer e aparecem as primeiras casas isoladas. Começa a aparecer também algum nevoeiro, que se torna muito denso e acaba em chuviscos. Não vejo nada! O piso torna-se muito irregular e pedregoso. Pressinto que saí do caminho certo. Estou perdido… Entretanto, oiço vozes e tento chegar a elas… e consigo. Devo ter-lhes parecido um D. Sebastião de bicicleta a sair do nevoeiro!
Os velhotes dão-me indicações preciosas para regressar ao caminho correcto. Desço, desço, e, por fim, o nevoeiro dissipa-se e à minha frente. Torno a ver o mar e também algumas aldeias isoladas com bastantes campos agrícolas, mas tudo bastante seco à espera das primeiras chuvas. Dirijo-me para uma aldeia chamada Chã de Norte, para tentar arranjar comida. Compro uma lata de sardinhas e a dona da pequena mercearia, muito gentilmente, dá-me um pouco de pão, e assim, tenho o almoço feito. Enquanto estou a comer, aparecem muitos curiosos para me verem. Aos maiores, deixo-os andarem de bicla, aos mais pequenos, tiro-lhes umas fotografias e mostro-lhas. Continuo a descer bem depressa, e de barriga cheia, até ao fundo do vale, para logo ter de voltar a subir, e esta subida é bem inclinada. Mais uma vez o calor é insuportável, sinto-me totalmente a destilar. Felizmente a subida suaviza e entro na simpática aldeia Ribeira da Cruz (Rbera do Kruz, em crioulo). Aí falo com uns miúdos para satisfazer a sua enorme curiosidade e sigo caminho. A partir daqui, volto a entrar no empedrado, tenho que fazer mais de 800 m de desnível de subida, que até não é muito inclinada. Durante a subida tive de parar algumas vezes, devido ao calor que é insuportável. Encontrei uma mercearia e bebi uma Coca-Cola, coisa que raramente faço, mas esta soube-me mesmo bem. Ao fim de algum tempo, finalmente chego ao colo da Selada de Alto Mira. A vista é fabulosa. Paro para descansar e para contemplar. Seguidamente, desço muito depressa e passo pelas poucas e pequenas aldeias a alta velocidade. As pessoas olham-me muito espantadas, visto que ia a uma velocidade estonteante. Paro em Lagedos e entro numa tasca para comer alguma coisa. A senhora serve-me uns bolos secos deliciosos e compro os que consigo meter na minha pequena mochila de 20 litros. Aqui fico à conversa com um cabo-verdiano, que já esteve a trabalhar em Portugal, e até conhece a minha pequena aldeia Santa Susana. Continuo a descer, e finalmente avisto uma recta com cerca de 10 k m até Porto Novo. Apesar de ser plano está um vento muito seco de frente. Enfim, até à chegada vou ter de sofrer, mas eu gosto é disto!!!
Devo ter feito cerca de 90 kms, cerca de 10 horas a pedalar, e o desnível de subida era acima dos 2500 m. Hoje só quero sopas e descanso, mas mesmo isto tenho que ir procurar.

6º dia
Depois de um reforçado pequeno-almoço, saio de Porto Novo, mais uma vez com uma longa subida para começar o dia. Vou fazer a principal via de ligação do lado Sul ao lado Norte. Apesar de praticamente não circularem carros, só se nota algum movimento quando chega um barco ao porto. E quando chega, sai logo uma procissão de carrinhas com os passageiros recém-chegados, montanha acima.
Quando início a subida, começa a apertar o calor, e depois é o forte vento que, por várias vezes, quase que me atira ao chão. Para completar o menu, passo por uma tempestade de areia. Tenho areia por tudo o que é sítio e faz-me arder os olhos. Quando tenho o vento de costas quase não preciso de pedalar, quando está de frente não consigo manter os olhos abertos, o que me obriga a andar no carreto mais leve, mas quando está de lado, o vento faz o papel de juiz ao aplicar, e de que maneira, a lei da gravidade para me tentar mandar para o chão. Mas eu aguentei e venci-o. O horizonte está todo amarelo devido à areia. Os locais chamam-lhe o vento Suão.
Finalmente, chego ao topo. À minha frente está a maior cratera de Santo Antão. É enorme! Se a cratera não tivesse abatido seria um pico com cerca de 3500 m de altitude, assim só tem 1500 m. A Cova de Paúl é usada exclusivamente para a agricultura. Em redor, existe alguma floresta com cedros e pinheiros. Desço para a cratera e tento encontrar um trilho para passar para o outro lado, mas encontro o trilho em muito mau estado e percorro-o todo com a bicicleta às costas. Quando chego ao topo, a vista, mais uma vez, é deslumbrante. À minha frente está o mais conhecido de todos os vales: Vale do Paúl. É muito verde e é todo aproveitado para agricultura. À minha frente espera-me uma descida alucinante, um estreito trilho pedestre com dezenas de s’s e com curvas a 180 graus. Começo a descer… nunca tinha feito nada assim, é a loucura total! A loucura leva-me a cair uma vez mais, mas nada que me impeça de gozar e abusar deste momento. Desço, desço… os aros fervem com as travagens. Quando começo a avistar as primeiras casas, aparecem miúdos descalços a correr atrás de mim. Acelero quanto posso neste zig-zag, mas não consigo despistá-los, é a risota completa. Paro numa aldeia para almoçar. Almoço num terraço de uma casa com uma vista fabulosa. Neste vale paradisíaco moram alguns europeus, que vieram à procura de tranquilidade, e alguns até recebem pessoas num ambiente bastante familiar. Continuo a descer. Em meu redor vejo aldeias perdidas na montanha. Aqui predominam as bananeiras, a fruta-pão e a cana-de-açúcar, utilizada para produzir o famoso grogue.
Chego a Vila das Pombas, uma bonita vila à beira mar. Abasteço-me na mercearia e, mais uma vez, fico à conversa. Agora sigo sempre junto ao mar, mais 15 kms, e estou na Ribeira Grande, uma das principais vilas de Santo Antão. É aqui que se encontra a maior parte dos serviços, e é também a parte da ilha que foi inicialmente habitada, após a descoberta da Ilha de Santo Antão, pelo navegador português, Diogo Afonso, em 1462, e sua colonização em 1548.
Volto a entrar num vale, mas vou andar um pouco mais. Mais à frente no lugar de Gem, mora a Deolinda. A Deolinda é uma senhora que trabalha para um amigo, e estava precisamente nesta altura de férias na Ilha de Santo Antão, a sua terra. Quando soube que eu ia para lá, disponibilizou-se para me receber em sua casa. Chego e sou recebido calorosamente por ela, sua filha e seus três netos. Tomo um duche e vamos assistir a um jogo de futebol. No campo pelado e cheio de pedras, o jogo é algo singular. A menina das pipocas atravessa o campo várias vezes, provavelmente para distrair os jogadores. Uma falta mais dura e é logo invasão de campo. Enquanto discutem, o árbitro espera na conversa com uma pessoa da assistência. Recomeçam o jogo mas ainda continua a discussão. Marcam um golo e é invasão de campo outra vez. O que é engraçado, é que apesar das discussões nunca passam a vias de facto, e quando acabam o jogo, mesmo perdendo, a festa continua com muita música e bebida. Esta noite, vou ter que ir a algumas casas porque fui sendo convidado por algumas pessoas. Comer, beber e dançar, enfim, um aborrecimento!!!

7º dia
Vou a rolar até à Ribeira Grande, para depois entrar noutro vale e para mais uma subida, bem inclinada, e como é da praxe, com muito, mas muito calor. Por algumas vezes, tive de recorrer a algumas sombras para ventilar um pouco. Passado o colo, faço uma descida vertiginosa, mais uma vez a velocidade é altíssima, e se alguma coisa se atravessa à minha frente, não é a bicicleta que vai para casa em cima do caixão (como no Aeroporto de Lisboa), mas sim, eu.
Mais em baixo entro num desfiladeiro enorme. Sigo durante algum tempo, saio do desfiladeiro por uma forte rampa, para logo de seguida entrar na aldeia Chã de Igreja (Txan d Igreja, em crioulo).
Abasteço-me de água e continuo até chegar à beira mar. Passo por mais uma pequena aldeia piscatória, para de seguida entrar no mais conhecido trilho de todo o Cabo Verde. Um trilho pedestre na falésia à beira mar. Ainda que seja pedestre, vou fazê-lo de bicla. O trilho é lindíssimo, num sobe e desce constante sempre com mar do meu lado esquerdo e uma enorme montanha do meu lado direito. Por vezes é tão estreito que raspo com o ombro na rocha e, do outro lado, um pequeno muro separa-me do precipício. Quando chove, não é aconselhável fazer o trilho, devido à queda de pedras. Aqui, encontro os primeiros turistas, é a minha oportunidade para me tirarem algumas fotos com a minha máquina. Até os europeus ficam um pouco perplexos por me verem andar por aqui de bicla. Passo por uma aldeia, de nome Fontainhas. É belíssima e muito colorida e está suspensa na falésia. Só para chegar a ela, num curto espaço de tempo, tenho de subir uma enorme rampa a morder o volante, e logo vem uma descida bem inclinada. Estou quase acabar este maravilhoso trilho… Agora percebo porque é o mais conhecido e o mais procurado.
Ao longe, avisto avila Ponta-do-Sol. À entrada da cidade, vejo uma coisa interessante: um condomínio de cortes para porcos. Uma solução para retirarem os porcos da cidade e um espaço comunitário para as pessoas criarem os seus bichos(pena que não tenham janelas para desfrutarem a vista).
A cidade é bonita, com uma arquitectura tipicamente colonial. Almoço mandioca com peixe grelhado e faço um pouco de praia. Custa-me muito começar a pedalar depois de ter estado a espreguiçar na praia, mas tem de ser! Consta-me que aqui a temperatura da água do mar tem vindo a subir, o que fez com que os vulcanólogos declarassem que pode haver o risco de novas erupções. Sigo para Ribeira Grande. Passo por uma praia e não resisto em dar mais um mergulho. Chego finalmente ao Lugar de Gem. Esta zona está cheia de bananais e árvores de fruta-pão. Mais uma vez sou recebido com euforia pelos miúdos. Sinto-me mesmo bem aqui, é como estivesse em minha casa, querem saber das minhas aventuras passadas durante o dia. Os putos, aqui, têm imaginação e muita habilidade, arranjam brincadeiras com qualquer coisa, brincam e divertem-se na rua, e não é preciso Barbies, nem Nintendos e muito menos ficam isolados dentro de casa. Aprendem, desde muito novos, a conhecer os sinais da natureza e a respeitá-los. Também crescem muito cedo, por vezes demasiado cedo porque a vida não lhes é fácil, mesmo assim estão sempre sorridentes e felizes.

8º dia
Saio deste local idílico, já com saudades. Fico muito grato à Deolinda e sua família por me terem acolhido, apesar de nunca me terem visto antes. Enriqueci a minha alma e o meu espírito com a sua humildade e a sua simpatia, sem pedirem nada em troca. Representam bem a famosa hospitalidade do povo de Santo Antão, não que eu tivesse dúvidas, mas esta experiência veio reforçá-la.
De volta à estrada, espera-me como é habitual uma vez mais um desnível de 1600 m de subida, ou seja, mais um empeno. A Estrada da Corda, como é conhecida, é a principal ligação da Ribeira Grande para Porto Novo. Já tinha feito a estrada da parte sul, faltava fazer a ligação da parte norte. De início, acho que é muito inclinada, mas como está a chuviscar e uma temperatura agradável, subo a bom ritmo. Finalmente, faço uma subida sem apanhar calor, pena é que não se veja nada, e sei, pelo que me disseram, que a vista desta estrada é muito bonita. A estrada da corda faz-se sobre uma crista sempre com vistas para os dois lados. Está nevoeiro e por vezes ouço vozes e risos, mas nunca vejo ninguém.
Em pouco tempo chego ao topo e novamente à Cova do Paúl. Felizmente quando aqui tinha passado estava bom tempo, agora não vejo nada. Não desço, por onde tinha subido há dois dias, vou procurar um velho trilho. Consta que este foi um dos primeiros a atravessar a ilha. Para o encontrar tenho de ir até ao Pico da Cruz. Imagino que aqui as vistas também devem ser lindíssimas… mas é isso mesmo, não deixa de ser uma imaginação por causa do nevoeiro. Encontrar o trilho torna-se difícil. Só com a ajuda de um pastor consigo encontrá-lo. Um miúdo propõe-se a acompanhar-me nos primeiros kms. E que trilho! Inicialmente encontro um no meio de um bosque com um bom piso e curvas com relevês. É um delírio! E o miúdo sempre a correr atrás de mim. Com este cenário nebuloso a pairar sobre o bosque, só me faltava aparecer um duende! Pensando melhor, acho que o rapaz já é ele próprio um guia-duende e protector.
A certa altura, ele dá-me algumas indicações em crioulo para continuar. Tem de voltar para tomar conta do seu rebanho. Fico-lhe grato por ter sido o meu pastor e ter conduzido esta ovelha tresmalhada.
As crianças só começam a aprender Português quando vão para a escola, mas mesmo assim consigo entender-me com eles.
Continuo a descer e o nevoeiro começa a desaparecer, bem como o trilho para meu desespero... Bem lá ao fundo, vejo Porto Novo, mas ainda me encontro a muito altura, cerca de 1000 m.
Voltar para trás está fora de questão. Continuo até que, a um certo ponto, tenho que ir sempre a pé, pois o que era em tempos um trilho é agora um monte de pedras rolantes e abrasivas. Torna-se num massacre para os meus joelhos e tornozelos. E lá vou descendo devagar sempre com a bicicleta a arrastar. Do outro lado do vale profundo, vejo a estrada, mas tenho de seguir por aqui, não há nada a fazer. O nevoeiro desapareceu e as poucas árvores também. Estou de volta ao deserto vulcânico. Porto novo continua bem lá ao fundo, e o calor aperta bastante. Ao fim de algumas horas, chego a uma aldeia abandonada. A partir daqui já dá para descer montado, mas o piso continua muito pedregoso. Mais uns kms à frente e tenho oportunidade de me vingar. Desço velozmente. Finalmente chego a Porto Novo, aquilo que parecia ser um dia fácil, tornou-se bastante violento para o meu corpo. Doem-me articulações que nem imaginava ter. O pneu tubless de trás, que trouxe novo, está bom para ir para o lixo, mas agora pouco me importa… Tinha acabado o meu objectivo em Santo Antão, e pouco mais vou andar daqui para frente.
Depois de descansar, dou um passeio pela cidade e encontro as duas italianas, que tinham vindo buscar mantimentos. Conheço um português, que já viveu no Cacém, e que agora tem por aqui um Ciber-Café. Confessa que ter vindo para aqui foi o melhor que podia ter feito, pois é uma terra de oportunidades, e o clima, por ser seco, em Porto Novo, é-lhe muito conveniente para o problema que tem nos ossos. Como eu o compreendo! Vivo, apenas, numa das zonas mais húmidas de Portugal! À noite, janto numa pizzaria e fico surpreendido com a bela mistura da cozinha cabo-verdiana com a italiana.
É a ultima noite que passo em Santo Antão. Foram dias maravilhosos: as pessoas, as montanhas, as praias!! Foi tudo muito intenso para mim, vou levar algum tempo a digerir todas as minhas experiências e vivências. Vou deitar-me, estou muito cansado, mas muito feliz. Sinto-me como uma criança!!!

9º dia
Desta vez não tenho de me levantar muito cedo e tomo o pequeno-almoço a ver a agitação do porto. Apesar da confusão, aquilo funciona. Tal como da outra vez, o barco sai adiantado dez minutos, mas desta vez estou atento. Para trás fica a silhueta da Ilha de Santo Antão. Que dias fabulosos, passei, eu, nesta ilha! O mar desta vez está com uma ondulação muito grande, muitas pessoas fazem uma lavagem ao estômago. Tento andar em pé mas sou logo projectado, é melhor ficar quieto. Ao entrar na enorme baía de Mindelo, o mar acalma. Quando vou buscar a bicicleta, vejo que está soterrada em bananas! Como vou ficar um dia em São Vicente, vou percorrer uma parte de bicicleta. Saio de Mindelo a pedalar com o pneu em muito mau estado. Só espero que aguente mais uns kms! Vou até à famosa Baia das Gatas (gatas:uma espécie de tubarão), são cerca de 15 kms. A Baía das Gatas é muito bonita e tem umas praias maravilhosas. Fico um pouco surpreendido por haver tão poucos hotéis e também poucas casas. Normalmente em sítios como este, é normal haver especulação imobiliária e um turismo desenfreado, mas aqui não! E ainda bem que não! Cheguei uma semana atrasado. Tinha acabado de se realizar o famoso festival da Baia das Gatas. Vem gente de todo o lado. Vou a uma tasca e, enquanto me preparam uma cachupa, vou dar uns mergulhos. Quando volto, lá tenho uma maravilhosa cachupa de cevada à minha espera. Apesar dos milhares de moscas e de algumas baratas à minha volta, é um local acolhedor, mas não há nada que um potente picante não desinfecte, neste caso, algum bicho esquisito que possa aparecer na dita. Fico por mais duas horas à conversa com os donos. Tudo pessoal porreiro! Almoço com eles e falam-me das suas dificuldades e sonhos. Um desses sonhos é ir para Portugal. Alerto-os que em Portugal a vida não é nada fácil, e pelo o que me é dado a ver, aqui, apesar de haver pobreza, não é necessário muito para viver. Convidam-me para ficar por ali mais um dia, mas tenho que seguir. Tenho que apanhar o avião bem cedo, no outro lado da ilha. De volta à estrada, tenho que fazer mais uns 30 kms. Além de ser pouco a subir, também ainda sinto bem o peso da cachupa, bem como aquele calor tórrido, que não ajuda nada. Sinto a pele a fritar. Chego à pequena aldeia piscatória de São Pedro e procuro um local para passar a noite, mas não encontro. A única solução é um resort, que está do outro lado da praia. Não me apetecia voltar para Mindelo, que fica a uns 10kms. A praia de São Pedro fica a 1 km do aeroporto, e também perto de um farol que já tinha visto quando tinha aterrado há uns dias atrás. Daí a minha opção de ficar aqui bem perto, e como tinha o voo no dia seguinte às oito… O que vou pagar aqui, é mais do que gastei nos restantes dias em Cabo Verde para dormir. O que vale é que fica junto ao mar e a praia de São Pedro é muito bela. Faço uma caminhada por um trilho até ao farol, regresso ao fim do dia. À noite, vou jantar e o empregado chama-me à atenção de que não tenho roupa apropriada, por estar de calções. Proponho então o seguinte: pagam-me um táxi para me levarem a Mindelo ou então arranjam-me umas calças apropriadas. Num resort de praia isto é inacreditável, tanto mais que depois entram outras pessoas de calções, só que estes devem ter mais 1 cm de comprimento do que os meus. Por fim, o empregado deixa-me jantar, afinal ele não passa de um empregado a cumprir ordens. Quando chegar a Portugal, farei a respectiva reclamação, pois isto pertence a um grupo português. As férias até agora foram fabulosas, e não será este pormenor que as vai estragar. Tenho saudades do pessoal e da tasca da Baia das Gatas. A meio da noite, acordo com um cheiro horrível. Muitos resorts de praia isolados não têm estação de tratamento de esgotos. Sai muito mais barato enviar a porcaria por um canal para o mar. Só que o vento esta noite estava contra e trouxe o mau cheiro para o hotel. Enfim, estou mais que arrependido de ter ficado aqui...

10º dia
Acordo bem cedo para apanhar o avião. Estou desejoso de sair deste resort. Vou para a Ilha do Sal. Sei que esta ilha é só para quem faz praia. Tenho mesmo que vir para aqui porque tenho de fazer escala. Como é habitual, saio do Aeroporto a pedalar para Santa Maria. A princípio, vou por caminhos, mas o mau estado do pneu obriga-me a ir pela estrada, está mesmo nas últimas… A Ilha do Sal é muito pequena e extremamente seca, nem uma erva nasce. Fico a pensar que mal teriam feito os primeiros colonos, para que os Portugueses os mandassem para este local desértico, há cerca de 500 anos.
Em Santa Maria, consigo arranjar uma pensão com um preço razoável. Aqui é tudo muito caro, devido enorme afluxo de turistas, principalmente Italianos e Franceses. A praia de Santa Maria tem alguns quilómetros de comprimento. Ao longo da costa, florescem hotéis, apartamentos e resorts, de uma maneira desordenada. Por todo o lado, encontra-se uma enorme quantidade de gruas e de betão que dão uma imagem horrível. Devido à enorme especulação imobiliária, a velha e pequena aldeia piscatória está a desaparecer. Os locais vendem os terrenos muito baratos, e com o pouco dinheiro constroem um bairro no interior, nas traseiras dos hotéis e resorts, perdendo o contacto e as suas tradições com o mar. Com a vinda do turismo em massa, vêm também os males da dita civilização: a droga, a prostituição e a sida.
Dou um passeio pela comprida praia, a água é mesmo apetitosa. Faz-me impressão como é que com um mar destes, as pessoas ficam nas piscinas dos hotéis, saindo por vezes tão pouco. A maior parte das pessoas que fazem este tipo de férias, não fazem férias propriamente, simplesmente mudam de casa, porque de resto não mudam muito as suas rotinas e hábitos. Quando volto para a pensão, encontro o Francês, que tinha estado com a sua esposa em Tarrafal de Monte Trigo. Ela voltou para casa e ele veio para aqui fazer Kite-Surf. Convida-me para ir experimentar, mas infelizmente não posso, tenho que estar no aeroporto amanhã cedo. Saio de Santa Maria com um quadro comprado na noite anterior, que custava 40€, e que consegui por 15€. Estive uma hora a fazer negócio com o Senegalês, que se desesperou um bocado por ter estado tanto tempo para lhe comprar o quadro. Mesmo assim penso que ficou a ganhar, e eu poderia ter regateado mais um pouco… Transportá-lo de bicicleta é que não foi nada fácil, e o vento não ajudava muito. Quando chego ao aeroporto, vejo, para meu desespero, que o voo atrasou… seis horas. Com este atraso, afinal acabou por não ser tão mau como isso. Deu-me tempo para ir ver uma cratera enorme. Apesar de esta cratera estar no meio da ilha, tem a particularidade de ter uma fenda que permite a entrada da água do mar. Este acidente geológico permitiu assim transformar toda a cratera em salinas. Aqui as pessoas podem também banhar-se e esturricar ao sol, sim porque nesta cratera não há um ventinho, e a temperatura é altíssima. Mesmo assim, lá estão as pessoas a destilar ao sol. No aeroporto, para passar o tempo, meto conversa com os taxistas. Dizem-me que, com o turismo, o negócio vai bem, mas também aumentaram os assaltos, a prostituição e a droga. Estes fenómenos levaram muita gente a sair para outras ilhas. Por outro lado, vieram os Senegaleses e os Guineenses. O que os entristece mais, é o facto dos turistas virem à procura de sexo por dinheiro, e não para conhecerem um povo, a sua cultura.
Finalmente vou partir. Começo a lembrar-me que tenho família, amigos e casa, e ainda o casamento de um grande amigo, amanhã. O avião levanta, fecho os olhos e recordo os maravilhosos momentos passados, as pessoas, os vales, as praias, a comida.....




Agradecimentos à Deolinda, por me ter acolhido, Ana e Kikas, por terem ido levar e trazer do aeroporto e terem guardado o carro.
Agradecimento aos amigos:http://www.caminhosdanatureza.com/